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NEOABJECCIONISMO

O abjeccionismo baseia-se na resposta de cada um à pergunta: QUE PODE FAZER UM HOMEM DESESPERADO QUANDO O AR É UM VÓMITO E NÓS SERES ABJECTOS?- Pedro Oom .-As palavras são meras formalidades... O NEOABJECCIONISMO, n

NEOABJECCIONISMO

O abjeccionismo baseia-se na resposta de cada um à pergunta: QUE PODE FAZER UM HOMEM DESESPERADO QUANDO O AR É UM VÓMITO E NÓS SERES ABJECTOS?- Pedro Oom .-As palavras são meras formalidades... O NEOABJECCIONISMO, n

31
Out08

NASCEU O PEDRO MIGUEL

NEOABJECCIONISMO

Saúdo com alegria

o Pedro também Miguel

que ás oito e dezassete do dia

com aviso e sem pincel

pintou  com ousadia

um rosto de  doce mel

que fez a minha alegria

 

Saúdo com emoção

o nascimento da estrela

que  tenha a dimensão

proporcional à mais bela

princesa de cuja mão

e amor de Cinderela

ganhe o seu coração

 

tudo na vida se apresta

em prol da minha razão

a que se lime a aresta

da Tita  com a emoção

convido todos à festa 

por este meu neto varão

 

 

 

 

25
Out08

A POESIA DE MARIA TERESA II

NEOABJECCIONISMO

 

                                                              OS FILHOS 

                                                                                                               

 

                                             Os filhos são  fruto do amor

 

                                             Mistério de vida duma mútua doação

 

                                             Fontes de ternura, alegria e dor

 

                                              bate com eles o nosso coração

 

                                              corta-se-lhes ao nascer

 

                                              O cordão umbilical

 

                                               Isso não impede que'até morrer

 

                                              Exista sempre o Amor Maternal

 

   poesia de maria teresa 

.

   

23
Out08

LUIS PACHECO (DIVULGAÇÃO)

NEOABJECCIONISMO
Ele tinha uma doença genética que desenvolveu e se propagou a outras espécies congéneres, mais tarde catalogada como doença ou vírus da ALEGRIA.
Relembro o homem que vejo na imagem de um ser alto, esguio, de olhos a saírem das órbitas, devido em parte ás grossas lentes, e com um sorriso de sarcasmo, ou malicioso, que ostentava mesmo nos momentos de maior contrariedade.
Um amante apaixonado de viver tudo e de tudo, em maldição absoluta, porque não é possivel viver infectado de ALEGRIA e ser-se abençoado, num reino onde imperava a tristeza.
  j.r.g.
 
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Da entrevista:
O Estado Novo prendeu-o por politiquices e por ter amado menores. Frequentou o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras e a meio mandou o curso dar uma curva ao bilhar russo. Entretanto, a Inspecção de Espectáculos admitiu-o como agente fiscal, mas sedentarismo não combinava com o seu feitio. Preferiu a situação que considera invejável: desempregado. Depois, funda a editora Contraponto onde a corrente surrealista viu muitos dos seus autores publicados. Crítico literário e cultural, tradutor, colaborou em diversos jornais e revistas, ‘O Globo’, ‘Afinidades’, ‘Seara Nova’, ‘Diário Popular’. A sua escrita caracterizada de irreverência e de poesia esbofeteou a torpeza intelectual e desafiou o lápis azul da censura Salazarista. Luiz Pacheco, que, em tempos, se fez sócio do Benfica para ir aos bailes e do Sporting para ir à natação, já não dança e não aprendeu a nadar. Apesar de ter andado perto do fundo, acaba por vir sempre à tona e ao seu ritmo.
_Tinha dito que não saía do lar do Príncipe Real. Afinal, enganou-se. Vive com o seu filho.
Um gajo também se engana! A vida nos lares é uma espécie de regimento. Horários. E mais horários. E eu estive em três. O pior era a convivência com os moribundos e as moribundas. Deprimente. Os tipos iam buscar os velhos às camas e espetavam com eles num buraco a que chamavam sala do convívio. Qual convívio? Convívio nenhum! Velhotes com os olhos fechados e outros que estavam nas últimas. Ah... e havia um animador que se punha a contar de um até ao número dez. Quando a gente pensava que o tipo ia fechar a goela, desatava a dizer a numeração em forma decrescente. Ele fazia coisas incríveis! Mandava pôr a mão para cima, para trás, para os lados. Eu sei lá. O último lar era muito mau. Tinha lá uma mulata que era cleptomaníaca. Roubou uma velha muito afanada e eu também fui roubado.
_O Luiz é que não está nada afanado...
Eu não estou afanado? A miúda deve estar a brincar! Eu não estou nada bem. Tenho muitas doenças, talvez umas vinte e três. Agora tenho uma m. chamada incontinência. Para um gajo é muito mau andar de fraldas. Mas a vista é a pior das mazelas.
_Se fosse menos teimoso já tinha sido operado.
Não conte com isso! Tenho medo. E não é da anestesia. Medo das consequências. A merda da operação pode provocar um acidente cardiovascular e já viu o que era? Dizem que é coisa muito simples, mas isso são conversas. Nessa eu não caio!
_Voltar a ler não é um estímulo?
Oh miúda, eu já li muito. Nem queira saber o que eu já li. Agora é a minha filha que me lê os artigos de jornais e algum livro que eu queira ler. Ocupo o raio do tempo a ver a RTP Memória. Estou a ver coisas que nunca tinha visto. Como por exemplo, o Júlio Isidro, o Zip-Zip. Gosto de ver velhadas. Entretenho-me com o humor fabuloso do Vasco Santana, do António Silva. O Solnado é uma merda. Uma invenção. Um disparate. O Herman José é diferente. Basta ser de origem alemã para saber o que está a fazer .
_O melhor aluno do Liceu Camões gosta de velhadas...
Não me faça rir. Mas fui o melhor daquela malta toda. Entrei em 1936 e fiquei lá oito anos. Sentava-me sempre na carteira da frente, porque os meus olhos já eram dois sacanas. O avô desse tipo chamado Eduardo Prado Coelho foi meu professor. Nós cagávamo-nos no gajo.
_Quem eram os seus colegas?
Lembro-me do José Manuel Serra, que foi director do Teatro Nacional de São Carlos, Lobo Saias, que chegou a ministro, e outros.
Os liceus não eram mistos, portanto, miúdas não eram pêras doces...
Imagine que nem podíamos chegar ao pé de uma escola feminina. Quando chegou a altura da universidade, o convívio não foi fácil. Não estávamos habituados. Pedir um lápis emprestado era cá uma trabalheira. Só para não haver contacto, deixávamos cair o raio do lápis ao chão.
_Entretanto, os contactos melhoram... esteve preso no Limoeiro devido a aventuras amorosas.
Prenderam-me por razões políticas e por ter desflorado umas garotas que eram menores. Mas atenção: eu também era menor! Uma ocasião foram duas irmãs ao mesmo tempo. Foi cá uma chatice... Antigamente, rapazes e raparigas faziam o que hoje fazem, mas com a diferença: não tinham o à-vontade que existe hoje. A pílula foi a estrondosa revolução. Ouvir dizer que, até, os homens já podem tomar essa m. Eu nunca tomei. E sou contra o aborto. Hoje em dia as garotas têm muitas facilidades...!
_Um rol de contraceptivos e a pílula do dia seguinte
O que é isso? O comprimido do dia a seguir à cegada?
_Sim. É contra o aborto e a favor da despenalização?
É claro! Prender moças é um autêntico disparate. Mas há malta que diz que aborta porque rejeita ter filhos indesejados. Ouça cá uma coisa: uma rapariga que se deita com um rapaz sabe do risco. E há outra malta que diz que não consegue criar filhos. Mentira. É só conversa. Eu sem cheta, desempregado, tenho oito filhos. Uma vez, fui deixar um filho à Casa Pia. Se os ‘gansos’ eram bem tratados? Coitados. Aquilo era uma miséria.
_Voltando à prisão. Como era no Limoeiro?
Uma prisão para os gajos que esperavam julgamento. Havia batota que não era a feijões, mas a dinheiro. Estava lá um enfermeiro tarado que vendia penicilina misturada com água. O refeitório era umas mesas corridas e havia um tipo que distribuía a comida. Os acordos davam direito ao prato ficar mais cheio. Naquela merda havia estratos sociais. A Sala dos Menores, a Sala dos Primários, para os estreantes, a Sala Comum, que era para a maralha, e a Sala dos Bacanos, onde estavam aqueles que tinham conhecimentos fora da prisão. Como eu. Da segunda vez que estive dentro, o Artur Ramos telefonou ao pai, que era director-geral da Penitenciaria e pôs-me cá fora.
_Um homem que nunca gostou de regras nasceu no seio de uma família de militares...
Não venha com as perguntas feitas de casa. O meu avô materno era capitão-de-mar-guerra, engenheiro maquinista, e o meu avô paterno, coronel da artilharia, dirigiu o Arquivo histórico-militar. Eram militares, mas pareciam ser outras pessoas. Tinham boa cara. O pai do meu pai, aquando da primeira incursão monárquica, comandada pelo Paiva Couceiro, foi a Chaves dar umas bombadas nos canhões e teve de fugir. O meu pai estava a tirar o curso na Faculdade de Letras para ser diplomata, mas como aconteceu a Primeira Grande Guerra, a diplomacia foi para o galheiro. Não acabou o curso. Nem eu.
_Por razões diferentes?
Sim. Os professores na Faculdade de Letras eram uns chatos. Excepto o Vitorino Nemésio (que me deu 18 valores) e o Delfim Santos. Nunca engraxei o Nemésio, eu não era igual ao Urbano e ao David. Mas espere aí, deixe-me falar do ano que antecedeu a faculdade. Em 1943, quando acabei o liceu, o meu pai disse que não tinha dinheiro para eu estudar na Faculdade. Falou com o professor João de Brito, que me deixou assistir às aulas. Eu era um aluno fantasma. Não me perguntavam nada, o que era maravilhoso. Nos intervalos ia para a biblioteca. Devorei Gil Vicente, Garcia de Resende, Fernão Lopes e outros. Por essa altura comecei a dar explicações. Portanto, aprendia e ensinava. Foi um ano em cheio! No final, fiquei muitíssimo bem classificado no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, no Curso de Filologia Romântica, e consegui ficar isento das propinas.
_Saiu da faculdade e, em 1946, foi admitido como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.
Aquilo era uma treta. Não inspeccionávamos nada.
_Quando é que funda a editora Contraponto?
A editora começou a funcionar em 1951, logo depois do primeiro número da revista. Nasceu no ensaio de uma terceira via e só tinha um critério: os gajos do Estado Novo não podiam entrar. Vivia um bocado à mercê do facto de eu e o Jaime Salazar sermos amigos. Quando foi publicado o ‘Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano’, de Mário Cesariny, o Jaime ficou f. Pensava que a editora era só para ele. Mais tarde, o mesmo aconteceu com Cesariny, quando Herberto apareceu. Razão tinha o Gaspar Simões em chamar- -me ‘O sacristão do Surrealismo’, por publicar aquela gajada. Não faz muito tempo, vendi a editora à irmã do Manuel Alegre por um preço de m..
_Era amigo de Cesariny?
Essa pergunta traz água no bico. Dizem que nós éramos amantes. Um disparate. O gajo não fazia o meu género. Eu nunca tive a mania de Paris. Ele tinha.
_A sua colaboração nos jornais começou no ‘O Globo’, em 1945, e ainda há dez anos escrevia na imprensa
O Nicolau Santos, que na altura era director do jornal ‘O Público’, convidou-me para escrever uma crónica. Os gajos até pagavam bem. Mas tiveram o azar de anunciar Luiz Pacheco escritor polemista. Dava-lhes jeito que eu desse porrada. Mas durante meses não lhes fiz a vontade. Podem contar comigo para dar porrada, mas jamais por incumbência.
_É verdade que, uma vez, enquanto traduzia um livro, esteve quase para ser publicado um palavrão?
Publicado não digo, mas aquilo fez-me correr. Eu estava a traduzir um livro para crianças e havia uma palavra cujo significado em Português eu não encontrava. Para não me esquecer escrevi a vermelho c. Quando me lembrei... falei à editora, que me disse que o livro já estava nas mãos do revisor. Corri para a casa do gajo. E lá estava o c. marcado a vermelho, mas fui a tempo. O c. foi substituído por penacho.
_É autor de muitos livros, mas nunca escreveu romances.
Porque é preciso ter disciplina. Mas não é como escritor que posso ser importante. Se me perguntarem da minha importância é como editor. Editei muitos livros que eram muito baratos. Tinha bons autores, Raul Leal, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny. Jamais editaria, por exemplo, o Fernando Namora. Ele era um aldrabão. Ou o José Agualusa, que não escreve nada. É um pateta alegre.
_O que é preciso para escrever bem?
Ler muita coisa. Estar atento. E há gajos que escrevem sem nunca terem lido uma frase.
_Gosta da escrita de António Lobo Antunes?
Muito. Gosto quando ele fala do bairro onde nasceu, Benfica. Tem muitas qualidades e anos de escrita. Mas é um bocado apanhado da pinha. Também tem a maluqueira de dizer que não consegue viver sem escrever. E tem razão. Ele é o escritor mais internacional de Portugal.
_E José Saramago?
Também, embora de maneira diferente. Mereceu o Nobel. Saramago e o Lobo Antunes têm uma coisa em comum: são escritores que já só escrevem para o estrangeiro.
_O que nos diz dos políticos?
São uns m. Comparados com eles próprios. Aquela que foi ministra das Finanças era uma tipa séria, mas era cá um camafeu.
_Gosta do José Sócrates?
Quem é? Não o conheço.
_Mas gosta de Pedro Santana Lopes?
É um ‘bom vivan’. Não deixou obra nenhuma, mas sabe viver. Andava nas discotecas e estes gajos – o pequeno, o gajo que é quase anão – fez-lhe a folha. O Santana é um senhor. Gosta das noites. E bebe o seu copinho. Eu deixei de beber há uma semana. Ao almoço bebia vinho – tinto, pois está claro. Quando se fala em vinho fala-se em tinto.
_João Soares, quando era presidente da Câmara Municipal de Lisboa, fez-lhe uma visita e trouxe-lhe umas garrafas de tinto.
E que belo tintol! Apareceu no Natal, com um funcionário. Trouxe-me vinho, um belo presunto e livros. Vinha com a ideia maluca de eu fazer um artigo sobre o governador do Costa do Castelo.
_O País reconhece as pessoas?
Não podemos falar de um só País. De Lisboa ao Porto existem dois países ou, talvez, existam quatro países em Portugal. Por exemplo, o Mário Soares, quando era Presidente da República, deu-me 650 contos. Uma vez, no Chiado pedi-lhe 20 paus emprestados. E ele deu-mos. Este presidente, o actual, que tem aquela cara, não me deu nada.
_Vive de alguma pensão?
Tenho um subsídio de 120 contos, graças ao Alçada Baptista. E também ao Balsemão, que teve a feliz ideia de inventar o decreto do mérito cultural. O Santana despachou um decreto que favorece pessoas que estão na minha situação. Mas não é por isso que gosto do rapaz. O tipo sabe o que é bom. O que é bom para mim são umas garotas, que vêm cá de manhã para me fazerem a higiene. Não é mau.

QUESTIONÁRIO

Um País... Montijo

Uma pessoa... D. Afonso Henriques

Um livro... ‘Gustavo, o Estroina’, de Paulo Koque

Uma música... ‘Variações’ de Goldberg

Um lema... Não me lixem. Não me chatem

Um clube... Clube Jardinense, o clube do Montijo
 
 
Miriam Assor
 

(retirado da net de uma entrevista ao Jornal Correio da Manhã.)

20
Out08

A POESIA DE MARIA TERESA I

NEOABJECCIONISMO

                  água

 

Chove! E a água corre...

corre pelo chão

O vento Norte

sopra forte

como um tufão

vindo do além

Chove! E a água corre...

corre pelo chão

Parece alguém

fugindo à sorte

temendo a morte

que cedo ou não

sempre vem

     maria teresa

 

                       por de sol 

 

Há um céu vermelho

de vários tons quentes

um mar prateado sereno

um quadro electrizante

que dá forças...aquece a alma

a noite cai devagarinho

de mansinho para não assustar

                             os duendes

e docemente penetrante

a primeira estrela brilhando

parece dançar alegremente

sinal de vitalidade que se sente

neste por de sol resplandecente

que sempre acentua o nascer

das almas simples e o morrer

                                    eternamente

            maria teresa

 

23
Set08

SER NEOABJECCIONISTA - OU A QUESTÂO DE DAR E TIRAR A CONFIANÇA

NEOABJECCIONISMO

O QUE É O NEO-ABJECCIONISMO


Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luís José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego... Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma...) também já por cá passaram...) Viram? É horrível!... A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho... Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:

Peço uma esmola.

 

(Alocução de Luís Pacheco numa conferência pública)

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A Minha  Reflexão...

Não se pede nem se dá, interioriza-se, sente-se e é como uma mola do interior de nós que se movimenta na direcção da coisa ou ser da nossa atenção.

Dar, não nos dá o direito de exigir vassalagem. Nem de retirar a coisa dada se não for feito o uso para que a demos. Dar é uma emoção dum dado momento que nos satisfaz. É uma necessidade nossa. Quando retiramos o que demos em determinado momento, não nos assiste o direito de retorno de nada. Não existe retorno do que foi gasto em ideia ou uso.Dei-te confiança, fizeste mau uso do meu confiar, logo, retiro-te a confiança. Devolve-ma...

O que é dar confiança?

Dar confiança pressupõe ter recebido confiança suficiente para poder retribuir. Ninguém dá nada a alguém  se não tiver tido um retorno. Madre  Teresa recebia a dádiva da Paz interior pela sua devoção a causas humanitárias. Entre o comum de nós, humanos, o hábito ou o acaso de dar, é sinónimo de ter recebido antes uma contrapartida, ainda que emocional.

Dar é um acto instantâneo face a um recebimento. É  reciproco.  Só possivel quando duas pessoas se cruzam e se sentem. Está dado.

Penso que não é estimável que alguém retire confiança a outrem e o faça anunciando tal decisão. É uma violência psicológica. A pessoa em quem se confia deixou de ser confiável no todo ou em parte, para um alguém, não para o todo, sequer para o todo de quem retira a confiança.

Na conferência de Luís Pacheco, ele explicita-se. Dêem-me trabalho, mas não um trabalho qualquer. Pede pão para os filhos e já agora, sem o dizer, que seja suficiente para o vinho.

É um pedido desesperado que obtém de quem dá duas satisfações de bem estar. A primeira, a emoção do quadro pintado por quem pede e que provoca a reacção de dar , a segunda, a emoção do acto de dar, efectivo. Sem a emoção anterior não há emoção posterior. Sem a dádiva que capta a atenção , não há dádiva de facto.

Falarmos subjectivamente do que nos interessa sem atendermos ao interesse do outro, é uma forma comum de manipulação dos interesses próprios em absoluto.

Pensarmos que é possivel comprar ou subjugar a consciência do outro, a sua liberdade de pensamento,  com actos que consideramos subjectivamente  suficientes para o manter amordaçado, subserviente a nós, é ingenuidade gratuita ou prepotência dos valores de que nos julgamos possuídos.

Eu considero, ainda, que mais grave é o processo Kafquiano de julgar os procedimentos de um individuo, apenas pela avaliação que alguém faz do seu comportamento e dos reflexos que ele pode induzir ou reflectir na sua própria visibilidade, a  do julgador, aos olhos de outros. Como se fosse indissociável um do outro, o que pratica a acção do sujeito que se vê implicito na própria acção.

 

 

 

 

 

22
Ago08

CRÓNICA DA CIDADE GRANDE

NEOABJECCIONISMO

Vista de onde eu a vejo, a Cidade é  extensa e intensa, dorme de luzes acesas em continuo e tem  a Lua poderosa como estigma dos sonhos.

Estou do outro lado da Cidade grande, descaído para a foz do rio  que a banha vindo de Espanha. Na marginal correm luzes possessas sem destino. Infinitas. Sei quando é o comboio, pelas janelas iluminadas, o som das rodas nos carris de ferro, ou quando é uma ambulância que se esgueira por entre os possessos dos outros, distraídos, a verem de onde vem o som de alarme, de SOS, se é para eles ou para uns outros .

Estou na penumbra da outra margem obscura frente à cidade grande e tive sonhos, tenho sonhos, de ser grande como a Cidade

O brilho da Lua quase ofusca as luzes da Cidade e produz ecos que ressoam na minha memória incandescente. A brisa é fresca, suave, amena e em frente há casa com luzes acesas.

Fixo os meus olhos em uma delas, é como se um pisca-pisca alucinante, como um íman poderoso, distante, me apelasse o registo. Sim, são dois vultos que se movem, parecem lutar pela posse de algo que não vejo ainda bem. Sinto que são um homem e uma mulher, ainda jovens. Acusam-se mutuamente, gritam, choram e agarram-se desesperadamente, soltando palavras que ferem. Culpabilizando-se. E movem-se em contínuos movimentos de vai e vem em roda de um candeeiro de mesa ou de tecto.

_Acreditei nos teus sentimentos. Na tua lealdade. Saíste-me um traste. São palavras da mulher entre soluços de dor profunda._ deixaste de me amar.

_Tu é que só pensas em ti, não tens a noção de projecto conjunto, de espaço. Já não me amas e eu amo-te. Quero amar-te sempre. _São dele, as palavras proferidas  no silêncio aparente da Cidade. Silêncio absurdo sobressaindo dos ruídos.

Percebo, o que eles disputam. É algo invisível que se lhes escapa a cada gesto Disputam amor, algo que sentiram, que sentem, mas que não entendem como se esfuma, se esvai deles que o  querem reter, porque o queriam estanque, à mão de cada zanga, à mão dos desejos quando o desespero de ficar só aperta o sentimento de amar.

Desvio os olhos para a luz azul celeste na negritude da noite. Impaciente perante a passividade, o condutor liga a sirene. Leva uma criança que chora, que arde em febre de origem desconhecida. Um homem e uma mulher trocam olhares de socorro mútuo. Dizem palavras com os olhos, entre si e para a criança que lhes estende os braços. O seu filho. E é amor o que vejo, tanto que me seduz, me pára o pensamento, me encanta de mim, porque são formas de amor distintas que eu vejo naqueles olhos e naqueles olhares. Amores diversos, acutilantes, que se entrecruzam.

Curiosidade geométrica

autor:João Vicente

Gente jovem deambula pelas ruas em busca de mais horas de vida. Garrafas de cerveja nas mãos, risos estridentes, palavreado fácil, inútil. Apenas palavras para se ouvirem. Palavras que procuram projectar alegrias em si e nos outros. Palavras , por vezes amargas, outras obscenas, arrogantes ou simplesmente afectuosas, se são amantes. Palavras para esquecer ao dealbar do dia.
Que fiz? Por onde andei? Que foi que disse ou prometi? E a quem? E amanhã?

Vejo brigas, discussões fúteis que provocam agressões. Assaltos de delinquentes menores.

Capitães da rua, decididos, disciplinados, cheios de vontade de serem maiores, ou tão grandes como a cidade. Seguem em grupo porque sozinhos perdem a força. Caçam como as Leoas, em grupo, escolhem a presa, também a mais fraca, debilitada.

Há gente que trabalha, despudoradamente, trabalha na noite para que a Cidade não estagne. Trabalham para poder pagar tudo o que gastam , que se torna numa justificante, para  continuarem a trabalhar. A apresentação, o carro, a alimentação, a casa própria, o estatuto, a moda.

Vagabundos alienados procuram insistentemente nos caixotes de lixo algo que os reconforte. Têm pressa, antes da recolha que os inibe desse prazer de achar. Vasculham. Lançam impropérios por entre os dentes moídos, descarnados quando se riem.

Ás vezes procuram apenas um pedaço de cartão que lhes sirva de cama, um leito diferente, de cores e cheiros. Discutem uns com os outros, é meu! A garrafa vazia.

A Lua aproxima-se inexoravelmente da linha do horizonte, de onde passará para o outro lado de onde a vemos, estamos, de onde estou. E sei que o seu movimento produz mutações, alimenta desejos. Sei que influi na essência das almas que vagueiam na noite. E nas que dormem, que se disputam nos sonhos.

Estamos no dealbar de uma nova aurora e ainda tenho tempo de olhar a luz fraca, adormecida, do 12º , imponente, do lado de onde o Sol nasce, e aperceber-me dos movimentos exaltados de dois amantes que se entregam, como que na totalidade, tal a fluidez dos gestos e dos aromas que me chegam, os gemidos de prazer, os beijos, os ais do clímax, dum absoluto de amor.

Olho os corpos desnudos, despreocupados, relaxantes que as mãos de um e outro se acariciam ternurentos.

E mais à frente, salteando de janela em janela, os solitários que a insónia mantém vigilantes, desesperados de procuras insistentes sem achado: os amores frustrados, amigos desleais, contas por pagar, o desemprego, os pais que os abandonaram sem afectos, filhos desviados, os objectivos difusos, falhas de amor próprio, procuram, no passado, no seu passado, razões de afectação ao presente e esquecem-se de si, do seu interior onde tudo adormecido podia despertar, onde se asfixiam na amalgama de sentimentos profundos, dolorosos que  se comprimem na ânsia de se soltarem, de uma palavra chave, uma luz, um milagre de si.

Sinto uma mudança brusca na aragem e um clarão ténue de claridade. Vai ser dia.

Ouço as vozes cavernosas dos primeiros pescadores, dos que chegam e dos que partem.

É o momento preciso em que a Cidade perde o brilho entre a bruma opaca da manhã junto ao rio.

Imensa, a Cidade grande, é agora um esboço e regurgita de um outro tipo de vida.

 

 

15
Ago08

O C O X O...

NEOABJECCIONISMO

Manuel e a serra, o serrote, rompendo a madeira, rasg, rasg, rasg, numa profusão de sons que parecem monótonos mas que se compõem em outros sons menores e meios sons, os arfantes dos pulmões estorricados por milhares de cigarros, dando origem a uma magnífica sinfonia de um só instrumento .

Os pássaros chilreiam em cima da bancada improvisada, pavoneando-se perante os gatos deitados na areia do quintal, numa sonolência pacifica de mesa farta, ou constantemente adiada.

Manuel, de vez em quando faz uma pausa, retira o boné, limpa o suor que desliza pelo rosto encanecido, sulcado de veios profundos, acende uma ponta de cigarro e aspira com satisfação, o fumo azulado que adeja sobre nós na calma do dia, olhando em volta, os pássaros, os gatos e eu.

_ Sr Manuel, a minha estante está pronta?

Faz um gesto largo, os olhos pequeninos que já terão sido grandes, quando habitava a vasta região Beirã, no limite da Beira, , raiando o Ribatejo.

_Está a secar da cola. Tinhas pressa?

_Não, mas queria pagar.

Os olhos avivaram-se. Não ter que pedir adiantamento, como quem mendiga, como se não fosse a paga pelo seu trabalho, a sua arte. Esperara todo o dia que ele viesse. E a tarde ainda ia a meio. Vagueou o olhar em redor, como quem não tem nada para dizer.

Veio ter comigo, cumprimentar-me, coxeando, a bengala de madeira que fora feita por ele, o aparelho da perna que emperrava de velho, ou do uso, ou de defeito de fabrico. E falava-me do tempo. Sim, o tempo ele mesmo, a rotação, a translação, as estações do ano e como contentar a todos se cada um tinha do tempo  uma ideia própria, só deles,de cada um.Como se o tempo fosse pertença do ser, ou da alma.

E nem se davam em como a Terra girava sobre si e à volta do Sol, em como a suas imprecações recaíam sobre si próprios.

_Eles protestam, - fazia um gesto vago com a cabeça, _mas não há como fugir ou protelar, o tempo faz o seu percurso e arrasta com ele todos os elementos, os concordantes e os contraditórios, não há como fugir-lhe.

Senhor Manuel, vamos beber um copo

 

boulevard de la liberté

Autor:Horey

 

Era uma figura de pequeno recorte, baixo e magro, a cara escanhoada, as mãos calejadas da serra e da plaina, do martelo, das caricias na madeira, como se fosse uma mulher bela.

_Vamos lá. Mas voltando ao tempo, acredita que é o grande mestre que tudo resolve. Repara como num dado momento, uma situação que parece impossível de entender, um imbróglio, e no momento seguinte, a cada instante que o tempo avança, tudo se decide pró ou contra, mas decide-se. Deixa de ser. Porque não há futuro, só passado e presente,

só sabemos o futuro passado... quando já é passado...

E veio, arrastando a perna e contando como foi que veio para a Capital mugir as vacas de um conterrâneo que fazia pela vida  vendendo o leite e das maroscas em que o iniciaram, colocando um pouco de água em tantas partes de leite, que era para liquefazer, dado que vinha muito espesso.

Fala-me da sua experiência como condutor de sidcar. E como uma ferida mal tratada, na canela, o levou à amputação da perna e ao escoar de tantos sonhos que construíra.

Falou-me de como conhecera a Maria, sua mulher, de como a  engravidou num momento de paixão e prometeu casar e casou, porque era homem de uma só palavra.

Tiveram cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz. Mas este morrera de Tifo. Um desgosto que o marcou profundamente. Um filho varão.

A voz é arrastada. Tem bronquite, tosse e cospe num lenço que mantém nos bolso das calças, porque se recusa a cuspir no chão, nem para o ar...

Dei-lhe a estante a fazer, não que fosse uma necessidade absoluta, eu próprio a poderia ter feito, simples,as tábuas já cortadas na estância, uns pregos, a cola.  Dei-lha a fazer para que tivesse um trabalho diferente em que se empenhasse de raiz. Foi ele quem fez o desenho, as medidas, imaginou a cor que ficaria melhor na decoração da casa onde eu a ia colocar._Sr. Manuel, quanto é afinal a obra?

_Olha,  pá. Como vês está pronta. É só secar e aparar com um pouco de lixa nos locais da cola. Podes levá-la ainda hoje, mais logo, deixa o tempo agir, fazer o seu percurso_ os olhos nos meus olhos, a sopesar as palavras _ Pronto, são cem escudos. Tu pagaste a madeira, compraste a cola...

Os meus olhos nos dele, um sorriso. Tirei  da carteira o que tinha pensado e estendi-lhe as notas.

Agarrou-as pausadamente, sem pressas, como que envergonhado e de súbito, ao dar-se conta...

_Mas isto são 150!?...

Olho as mãos dele, trémulas, e penso que não tem ideia do valor do seu próprio valor.

_Mais logo passo para levar a estante. Foi o que lhe disse, já do lado de fora da cancela do quintal, escondendo os olhos para que ele não visse como se turvaram.

 

 

27
Jul08

NOSTALGIAS !...

NEOABJECCIONISMO

O café pastelaria, tertúlia , onde navegávamos, metafísicos , na abordagem do conhecimento das coisas novas que, afinal, eram comuns noutras paragens, deixou de existir há muito.

Foi loja de moda, de artesanato e agora é nada. Vazio. Nem a memória das divagações literárias, as fífias juvenis a procurar afirmação de personalidade. Jogos do ser e do nada.

Ao cimo da rua que começa no largo da praça em direcção ao mar. Mar que já esteve mais longe, deixando aos prazeres um extenso areal de areia fina, as dunas salpicadas de cardos e chorões , a esconder, por vezes,  actos de natureza proibida. Só resta, num recôndito do cérebro , o avivar das emoções de quem resiste. E saltam nomes na memória: Pedro, Carlos, Lauri , João,  o Sr. . Farinha, patriarca, as raparigas, Tatiana, as Ginas de Regina e Virgínia Jeni , de Eugénia, Irene...

Onde estão?

O café a meio cêntimo, os nata sem correspondência monetária a um escudo e vinte centavos. As andanças a pé 

Os projectos megalómanos, literatura, artes plásticas, ciência. O futuro com a guerra ali tão próxima e a legião de mulheres de xailes negros sobre roupa negra, que subiam a rua, passavam junto à montra apressadas, canastras à cabeça a ver o peixe chegar, daí a instantes, alheadas das congeminações efabuladas de uma pretensa elite desassossegada.

 Ir à praia a meio da noite e tomar banho desnudos, a luminosidade da água a cada braçada, magia e sedução dos sentidos. O prazer do nu, proibido, preconceituado. A sensação plena de livres.

Pedro, o chouriço roubado na pastelaria do largo, a garrafa de vinho comprada com a reunião dos trocos de cada um, o assalto à residência de Verão dos pais dele o churrasco em álcool , a amizade sem limites.

Foi piloto aviador. Achá mo-nos na Aldeia Formosa, numa manhã quente de África e fez questão de me lançar numa experiência única. Voar.

Um avião de guerra, morte destruição, dor, num dos raros momentos ao serviço da paz.

Pedro brincou com o pequeno T6 no ar rarefeito, subindo a pique, rumo ao infinito e de repente, uma inversão, rodando sobre si próprio, a descida vertiginosa.

Na subida, era como se todas as entranhas quisessem soltar-se do meu corpo miúdo, ao contrário da descida em que o cérebro parecia saltar a todo o momento. Náuseas .

Suicidou-se, poucos anos depois do regresso, com gás doméstico. Não com napalm.

Carlos, o poeta, engenheiro de sistemas, talvez o mais erudito da tertúlia , não terá resistido à pressão. De quê? Suicidou-se em condições misteriosas. Extrema terá sido a sua solidão, entre a mulher  Francesa e as filhas e a Ascenção da carreira. Onde ficava ele?

Irene , a bela e encantadora Irene . A medicina era a sua paixão. Salvar vidas. Aprender e dar tudo de novo. Minorar a dor, de preferência pediatria. Sonhadora, linda. Uma doença súbita e fatal. Um cancro galopante e imparável no sangue. Os sonhos desfeitos de encontro à interrogação que nos acode: Que andamos nós a fazer aqui? Que força é esta que nos impele a lutar, sem tréguas e a cair, desfalecidos, inertes, sem que o possamos impedir.

Regina, artista plástica de mérito, amante sublime do belo e de Lauri. O corpo miúdo, harmonioso Jeni, espalhafatosa, cheinha de corpo, mas lesta na procura do culto da alegria . Vê-la correr, esbaforida, o corpo gingão, Avenida acima para não perder o concerto de ditos de João Villaret . Tatiana, que casou com Pedro e o viu morrer, ou achou morto na banheira um dia, ou não soube evitar, de algum modo, evitar, que a solidão se instalasse .Lauri, Paris a rádio, os romances , o  teatro. A amizade perdida nas tragédias da vida, deslealdades. O irrazoável do teu ponto de vista, do meu que soçobrava .

E os outros?... Que é feito de vós.?...

 

 

 

 

10
Jul08

JOÃO VILARET - CÂNTICO NEGRO

NEOABJECCIONISMO

João Villaret

 

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 Registo aqueles dias à hora do almoço. O S. Jorge imponente nos silêncios.O silêncio do palco iluminando a sombra . O silêncio de quem veio e se senta reverente na plateia que se adensa. O palco adereçado para o espectaculo como se ele estivesse lá. A cadeira, o piano, O facho de luz sobre  o invisivel da imagem.

Tu e eu de mãos dadas. Sustendo-nos de respirar.

Assina -Virginia Bettencourt

 

 Sem dúvida o melhor declamador de todos os tempos, em Portugal. Deu alma à poesia Portuguesa, imortalizou poetas e poemas e este Cântico Negro, de um poeta maldito, eximio de força e de criatividade da arte e dizer. Eximio na afirmação de ser Português.

Nós somos assim. Podem avisar-nos, demonstrar por A mais B que vamos no caminho errado, apontar-nos um outro rumo, que nós dizemos não, "não vou por ai. Só vou por onde me levarem os meus próprios passos" A minha homenagem de culto, ao poeta e ao intérprete

Neo

 

 Gostaria de lembrar um outro aspecto que considero muito importante na personalidade de João Villaret, e que tem a ver com o contributo que ele deu a uma liberdade que ainda vinha longe. Dos palcos dos Teatros do Parque Mayer, quando o homenzinho da censura adormecia, João Villaret aproveitava para dizer todas as verdades que lhe ocorriam sobre o triste país em que vivíamos. Ele ridicularizava Salazar, dizia o que lhe vinha à cabeça, e com isto arriscou a a vida por uma liberdade que para ele já não chegou a tempo. Obrigada, João Villaret.

Assina - Teresa Mascarenhas

 

05
Jul08

FRANK SINATRA - 1915 - 1998

NEOABJECCIONISMO

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Foi um dos melhores intérpretes de música pop do século xx. Uma voz poderosa, inserida ou extrapolada de um estilo próprio de grande originalidade.

Goste-se ou não da América e ou dos Americanos, é dificil ficar indiferente ao seu estilo vibrante, à harmonia do canto e da música que nos faz transbordar de emoções de vitória.

 Escolhi estes dois temas, que vos ofereço para um momento de calma e reflexão

 

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"Só se vive uma vez e, do jeito que eu vivo, uma vez é suficiente"

Frank Sinatra

 

 Videos retirados do Yu Tub

 

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