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NEOABJECCIONISMO

O abjeccionismo baseia-se na resposta de cada um à pergunta: QUE PODE FAZER UM HOMEM DESESPERADO QUANDO O AR É UM VÓMITO E NÓS SERES ABJECTOS?- Pedro Oom .-As palavras são meras formalidades... O NEOABJECCIONISMO, n

NEOABJECCIONISMO

O abjeccionismo baseia-se na resposta de cada um à pergunta: QUE PODE FAZER UM HOMEM DESESPERADO QUANDO O AR É UM VÓMITO E NÓS SERES ABJECTOS?- Pedro Oom .-As palavras são meras formalidades... O NEOABJECCIONISMO, n

15
Jan10

PENSAR...O PENSAMENTO...MEDITAR...O ÊXTASE...

NEOABJECCIONISMO

 

foto tirada da net

***

 

 

pensar...o pensamento...meditar...o êxtase...

***

são fases do homem sublimado

 

*****

 

pensar não é antever o que fazer no imediato

a cada partícula de segundo agir obcecado

oscilar entre o prazer ou ficar parado em bom recato

viver toda a vida como um boneco animado

 

o pensamento é olhar o corpo através da alma

é ver para dentro de toda a matéria nublada

ultrapassar o vento ir além do cosmos sentir a mão na palma

perscrutar o ser e nele reflectir o movimento vida gorada

 

meditar é sair do corpo e ser na alma serena exaltação

consolidar o pensamento dar ao tempo o tempo de acontecer

é ir além do saber acumulado o não saber e ser meditação

compor o puzzle sem se deixar da acalmia envelhecer

 

o êxtase apanha a alma num absoluto de solidão

fixa os motivos e os porquês da existência

como uma branca no consciente do ser em doce exortação

convoca todos os sentidos a assumirem de si a evidência

 

do acto de pensar chegámos ao humano pensamento

a meditar no tempo aportamos ao profundo êxtase

um homem uma mulher em subtil encantamento

fazem amor no abismo desde o topo até à base

 

agora quem faz que pensa é a máquina

passamos o tempo na espera ansiosa que ela medite

ela que usufrui do pensamento que a iquina

que nos leva pelo mundo em viagens sem limite

 

tudo o resto é sonho ou devaneio da alma acomodada

um arrufo de namoro uma alegria de alma sofrida

uma cobiça a teimosia de viver a vida em si fechada

e ir na onda da mediocridade aguerrida

 

autor: JRG

 

 

 

 

24
Ago09

SOU APRENDIZ DE VIVER SENDO

NEOABJECCIONISMO

 

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foto do site Portugalmaresias, visite e delicie-se na excelência romântica da palavra em

http://maresiaspoetasportugueses.ning.com/?xgi=gl8CcDV

 

foi em pleno inverno era Dezembro que nasci
presumo que em dia frio sem sol tempestuoso
o mar rugia perto na igreja o sino gritei estremeci
e dei inicio ao meu viver de aprendiz algo medroso

...

cresci entre montes de areia e no charco do juncal
andei à escola soletrei li contei conheci mundo
imaginei em sonho como seria Portugal
este lugar da terra onde aprendi a ser profundo

...

comecei cedo aprendiz de blocos de cimento
das oito às cinco pelo patrão que era maricas assediado
galguei num pulo esse oficio que era um tormento
fui bate chapas mecânico e dei um salto arrebatado

...

no escritório era paquete de mulheres formosas ao recado
aprendi de tudo o que um homem deve aprender
a higiene a autoestima a ser no sendo descodificado
voltei à escola senti fervores de amores em meu sofrer

...

fui promovido senti o calor de mulher num primeiro beijo
aquele cheiro absorvente que não mais me deixou
vinha de entre os folhos das saias junto às coxas num anseio
aprendi a ter ciúmes de mulher que amei e não me amou

...

aprendi a ler direito na fome de saber literatura de alto nível
de tudo um pouco mastiguei ruminei e fui sendo conhecedor
escrevi versos insipientes contos fui revolucionário civel
fiz um curso de guerra passei dois anos num mato sedutor

...

enfim reencontrei uma mulher a mais linda e bela a mais formosa
não sem antes ter vivido o pesadelo da pré loucura
ela foi sendo como eu na construção dum absoluto maravilhosa
fomos ao céu adejando sob as estrelas achando o que acha quem procura

...

tive filhos enfrentei da vida tempestades fui promotor de boa e má cultura
não consegui salvar como Camões os valiosos pergaminhos
perdidos na confusão das leis nos labirintos tóxicos desta aventura
andei à pesca pescador de águas limpidas num intervalo bebi dúcteis vinhos

...

andei ao lixo morei num contentor quando fui guarda num parque de campismo
fui aprendiz de tudo o que vivi ganhei respeito e força para começar de novo
como uma Fénix abri as asas expeli a raiva de me ver bem fundo no abismo
galguei montanhas subi maresias contra corrente de ventos que vergam povo

...

como Sisifo empurro a pedra poderosa sustida a meio agarro o mito
tirei mulheres desesperadas encolhidas no manto pueril da melancolia
descobri que ser mulher é ser o fim sendo o principio cultivo dela um novo rito
percorro na senda do sendo novos caminhos dum mundo novo com alegria

...

autor: j.r.g. - agosto de 2009

15
Ago09

SER POETA

NEOABJECCIONISMO

Vês aquele homem de cabelo branco digo para minha neta
alto desengonçado no andar que busca entendimento
quem é avô os olhos dele altivos e eu digo-lhe que é um poeta
que parece andar a monte do seu verso que exprime sentimento
+++++
ela fixa o vulto e franze a testa nos três aninhos que é a sua idade
ele sorri para ela do alto do Olimpo onde adejava a sua mente
ela insiste quer saber a importância e o que encerra de verdade
o ser poeta que me encanta de poesia e seduz eternamente
+++++
digo que é um ser vulgar que ilumina em verso a vida da gente
que com ou sem mote descobre a musa em um sorriso de mulher
que nos transmite a força dum impulso que voa permanente
mas avô... os olhos doces como mel pode ser poeta quem quer?
+++++
não meu amor poeta é sentir de dentro a força que move e arrebita
é congregar os elementos a água o mar o ar que regurgita  ventos
é atear o fogo que a alma não enjeita é ser da terra  um eremita
ser poeta é dizer ao mundo inteiro que cessem os lamentos
+++++
e é também ser homem pleno louco apático amante  visionário
que rasga fronteiras impostas na semântica de palavras sensatas
avilta poderes estabelecidos nos preconceitos a que é contrário
poeta é ser maior concreto à revelia das palavras cordatas

autor: j.r.g.

06
Ago09

O MITO NA SENSUALIDADE FEMININA

NEOABJECCIONISMO

a sensualidade feita poesia
a luz o cheiro os sabores
que das palavras o poema irradia
e me cativa em seus amores

se todo o mundo falasse a mesma língua
e se tivesse da vida a sã visão
o planeta não estaria tão à mingua
dos poucos que lhe estendem sua mão

leio os poemas vontade louca despedida
sangrar poema mão dupla memória
as palavras dúcteis crescendo na subida
ciosas de serem de si a própria história

sigo a vereda poética precisão e poetar
leio enlevado as sobras e a fúria de Gaia
suspenso na noite sonho banhado em luar
e molho o corpo no mar onde ele se espraia

quero abrir os olhos sentir o despertar
descobrir no sonho se estou vivendo a realidade
ou se sou um outro de dentro de mim a voltejar
ouço o teu rir no ventre do jardim que há na cidade

fresca juvenil menina diáfana maravilhosa
de dentro da paixão de viver exibes a rebeldia
o poema vive a metamorfose qual mariposa
e surge esplendoroso ao som da sinfonia

 

porque és da mulher o doce mito

teu olhar espelhado nas palavras sensuais

não és apenas sexo em ti a alma marca o rito

o sexo e o prazer estéril são marginais

 

obrigado, grato, agradecido amiga
que te fizeste humilde para aqui chegar
sendo rainha onde cultivam de ti a arte antiga
pousaste nesta acalmia doce mar

 

 

 

autor:j.r.g.

 

26
Jun09

DIA INTERNACIONAL DO COMBATE ÀS DROGAS-Blogagem Colectiva ( II )

NEOABJECCIONISMO

neo - j.r.g  a minha participação ( II )   

 

 in

 CD - Lado B  blogagem colectiva

 

 

 

A TRAGÉDIA DA MODERNIDADE-A DROGA

 

Era de noite e vieste, silenciosa como um felino, de manso caminhar por entre escombros, ruínas, da velha cidade adormecida. Tu e eu, num recanto da rua mal iluminada.

Os teus olhos ainda grandes, mal me olham, assustados. A pele do rosto descuidada e manchada pelo cisco das poeiras adejando por sobre o teu corpo, em volta da alma. Magra, diria escanzelada, enferma de carinhos e de ambição.

O sistema traiu-te e tu trais o sistema. Pagar  na mesma moeda.   Dente por dente. Sem olhar atrás nem para a frente nebulosa do caminho. Para ti, chegaste ao termo da etapa que para outros ainda é princípio.

Amparas-te no meu braço enquanto caminhamos lado a lado como dois amantes estranhos que tivessem combinado encontrar-se a esta hora, no momento estremo em que deambulavas na ânsia de encontrar algo, alguém que te bastasse o consumo da tragédia que já és, um pouco de pó, a volúpia da seringa penetrando-te as veias enormes onde ainda subsistem e o teu corpo treme ante a iminência de o conseguires.

Congregas o absoluto da tragédia. É isso que eu penso nesta loucura de ter correspondido ao teu apelo, aos teus olhos que me fitaram de uma forma absolutamente irrecusável.

Deixo-te sentada no carro e volto à porta do bar. Não ao Bar. Apenas a porta, onde um tipo de assobio saltitante,  a barba indigente, puxa fumaças agressivas de uma espécie de cigarro.

Compro três tomas do produto que me indicaste e regresso ao carro em passos decididos. Tenho pressa.

Estás inclinada para a frente e uma humidade indecisa a bailar-te, escorrendo dos lábios entreabertos. Cai sobre o banco.  Tremes alucinações. Balbucias palavras inteligíveis.

Arranco com o carro, tenho pressa, enquanto preparas o produto e o injectas numa das veias disponíveis, sob o meu olhar de soslaio.  Imagens correm desabridas. Bem sei que estou só, que posso decidir de mim, de todos os meus actos, mas imbuído de uma força transcendente que me conduz, uma força ancestral, talvez das origens do homem, talvez não tenhamos sido sempre predadores de nós mesmos.

Chegamos, a casa não tem adornos nem vistas. É soturna, com livros e papeis espalhados sem critério. Ainda se o tivesse, se escolhesse o sítio onde o livro tal num determinado lugar do chão, ou o papel em relevo, atirado num momento de raiva ou de simples abstracção, ou a sensação de ter poder.

Olho para ti, o teu corpo ainda de criança, mal cresceste, rodeado de feridas provocadas em improvisos da tragédia.

Agarro-me a esta palavra: TRAGÉDIA, ao seu significado linguístico quando incluída num contexto, a esmiuçá-la quanto à significação da palavra em si e o que representa para ti e para mim, necessariamente emoções contrárias e não porque sejas mulher e eu homem, mas por força de outras eminências do ser e do não ser neste momento.

Olhas para mim enquanto despes, peça a peça, com falsa volúpia nos meneios do corpo, tentando induzir-me em eróticos fluidos inexistentes.  Os olhos mortiços, apagados, sem brilho, sem luz, mas olhos e com um certo tipo de visão, evasiva, turva, de onde vislumbro uma ténue claridade de vida

Atiras-me a cueca mal cheirosa. Mijo e esperma de momentos antigos. Há quanto tempo a tua sujidade?

No quarto de banho a água morna sobre o teu corpo. Deixas que as minhas mãos o percorram em movimentos lentos com a esponja embebida em gel e a espuma abundante a cobrir a pele, as chagas ainda não completamente abertas. Os meus dedos penetram o canal anal em movimentos suaves retirando a merda acumulada. Há quantos dias, meses, anos. Desde quando. Dilatado o teu cu por enrabadelas consentidas em sôfregas investidas de gente tão sem ser como tu. O teu sexo original. Que te fizeram?   Queimada com cigarro? elástica pelo uso sem nexo e a violência da irracionalidade.

 Os teus pés tão delicados, gretados e as pernas que foram belas e agora encanecidas de veias duras, chagadas. As mamas estão como dois balões que se foram esvaziando. Espremidas, a carne, as glândulas, a seiva.

Seco o teu corpo com a toalha grande de todos os banhos e estendo-te a camisa de dormir da última mulher que amei. Escovo o teu cabelo. Abraço-te para te sentir. Para que me sintas. O teu corpo está frio e é um misto de rijo e mole.

-Estou limpa, vá. podes-me foder . Soltas gargalhadas, as mãos em desequilíbrio volteando sem nexo.

Olho para ti de novo. estás limpa por fora. Quase linda. Se tu quisesses! Se tu quiseres!

Preparo uma refeição para nós dois. Bifes grelhados e batatas fritas. _Faço sumo de laranja ou queres leite, pergunto.

Sentados em frente, os meus olhos nos teus olhos até que me fixas e te deixas fixar. _Prefiro o sumo.

Falas-me do desacerto da família. As carências de amor e de ódio. Apenas indiferença que dói, manipula a pessoa e a degrada. As noitadas sem registo, o desinteresse de tudo. A venda dos sentidos por momentos alucinantes de loucura e as ressacas são uma outra espécie de prazeres ocultos que nos inibem de nós e nos transportam para o outro lado do ser, o não ser. Onde já ninguém se importa de nós, até que um dia, Bah. Apaga-se.

Perdeste os modos de comer. Tens fome e fastio. Sem pressa e enquanto experimento sondar o que resta do teu eu, da essência que resta, que a droga não extinguiu.

-Gostava que ficasses aqui.

-O quê? Viver contigo?

-Não. Ficares aqui, simplesmente e deixares que te reaprenda e que tu própria reaprendas a pessoa que há em ti. Que tu és.

Choras. As lágrimas escorrem desalinhadas pelo teu rosto que vem ganhando alguma cor, após a comida quente.

Abraço-te e levo-te para a cama. Vejo que ficas na expectativa do que vou fazer a seguir e ensaias as posições aprendidas na tragédia.

-Fazemos um tratado.

-O que é isso?

-Um acordo de princípios. Vou colocar as duas doses que restam ali, ante ti. Para que os teus olhos as vejam quando acordares. Em cima da mesa das fotos de família. E tu vais resistir-lhes. Que dizes?

Viras-me o cu. E momentos depois, emocionada, a voz embargada numa aura de esperança, envolta em amor, como por magia, sem palavras, o sentido diáfano do conceito de amor, amar o quê? A quem?

-Porque esperas? Acaba com isto de vez. Faço tudo o que quiseres, Na cona, no cu, na boca. E deixa-me seguir o caminho. Podes ficar com a merda da droga. está pago.

Ela disse as palavras sem me olhar. a cabeça enterrada na almofada, a aspirar os aromas lavados há tanto esquecidos.

Levanto-a docemente da cama. Ele, o corpo dela a exalar os cheiros que cativam encantos. Resquícios entranhados na pele.

-Esquece tudo. Apaga. Agora és uma outra pessoa, sem passado, ou de passado ausente, e de presente suspenso. Não há igualmente futuro, apenas este presente suspenso. Chamo por ti, longe e quero que assines um compromisso, que te assumas em responsabilidade, que te chames de onde estás e voltes.

Um silêncio exasperante cortado por um ataque de tosse súbito. Ia cuspir no chão. Olhou-me com doçura, a mão estendida por um lenço.

-Estou aqui para te amar num pleno de intenções e conceitos da palavra. Não quero ter nada contigo do que dizes. Não quero foder.  Quero-te num todo onde tu também és querer. O que eu quero agora é amar-te por todos os que não te amaram. Amar-te sobretudo a alma de cujo destino o corpo é alheio.

As palavras a ecoarem no vácuo do cérebro. Sentia-se bem, a dose acalmara os tremores, as ânsias, a refeição era a primeira completa e bem confeccionada desde que se lembrava, ou mais precisamente, como se fosse a primeira desde sempre. Sentia aquele homem diferente, tratando-a como uma princesa e propunha-lhe um pacto, um compasso de espera entre a razão e a irracionalidade. Sabia que não seria capaz. Logo que doesse rasgaria o pacto. Que se fodesse, mas arriscou.

-Ufa! Queimas-me. Onde é que eu assino.

 

 A RESSACA

 

Sou um quadro superior, considerado importante. Pode dizer-se, um alto quadro de empresa farmacêutica, com direito a assessores  e outras mordomias instituídas.

Telefono a antecipar um período de férias por quinze dias

O dia amanhecera fresco, com o sol de uma cor amarelada a despontar por sobre a falésia, enquanto em frente o   mar de infinito, a cor verde adensada, espelhada numa larga extensão até que a linha de horizonte, como um traço fino de lápis afiado, se esbatia abruptamente no alcance da visão.

Dormitei na cadeira em frente da cama onde o corpo dela meio despido se espraiava em movimentos lentos, quase doces, por vezes convulsivos. E acordava, eu,  em cada instante, sobressaltado, olhando de imediato o volume pequeno mas visível dos 2 panfletos de droga em cima do pequeno móvel das fotografias.

Será que vou ser capaz? Interrogo-me no silêncio do quarto amplo e meio na sombra dos cortinados corridos que escondiam a luz, prolongando a ideia de noite.

O corpo da mulher jovem e talvez bela um dia, ainda, que já fora. Parecia-me mais cheio. Que a carne ressequida voltava a ocupar, muito lentamente, os espaços escavados pela fome de anos. Um corpo de mulher na minha cama de desimpedido, livre de grilhetas legais.

Eu e ela como um só, o pensamento a vogar num sentido, enquanto o dela imerso em sonhos de afogada salva no último instante, parecia permanecer inacessível a qualquer apelo da razão

Pensava na essência do amor, O sentido presente da significação da palavra enquanto entidade que proporcionava uma oportunidade de redenção. A cama, onde vivi noites fatídicas de orgasmos múltiplos com mulheres carenciadas de afectos, perfumadas de aromas exóticos e que ao acordar pela manhã se mostravam na verdade puras de odores incompatíveis com a minha genética do cheiro.

Não havia perfumes adulterados naquele corpo de mulher e no entanto, o ar do quarto estava purificado pela maresia que entrava na fresta da janela e nos inundava num amplexo terno e sedutor.

Levantou a perna, ela,  num gesto descuidado descobrindo a púbis luzidia, os pelos emaranhados mas soltos, leves, seco de pruridos ou corrimentos o sexo de crostas ainda agarradas no clítoris engelhado, como sem vida.  

Levanto-me aturdido pela imagem dum ontem que procurava esquecer, partir de uma nova situação e com um sorriso ainda tímido nos lábios carnudos, fui preparar o pequeno-almoço.

Estava acordada, quando voltei de tabuleiro recheado, e o melhor dos sorrisos, a dizer a palavra bom dia.

Recomposta, esclarecida  da nova situação, mastigando cada pedaço, rebuscando na memória escaldante, justificações quase pueris.

Os pais separados. A preocupação com a carreira de cada um. O irmão que era a glória da família. Namoricos desinteressantes de adolescente fugidia. Uma mudança de escola intempestiva. Amigas igualmente descontinuadas, como ela, um pai austero que surpreendera a ser repreendido por um senhor que fora lá a casa, que se recusara a esclarecer o que se passava, porque tinham de mudar de casa. A mãe indefesa, descrente, preocupada em ter elogios no emprego que era o tema de todas as conversas e da falta de tempo para ir à festa da escola, à reunião de pais, sequer a ouvir as suas dúvidas, as inquietações crescentes que a incomodavam.

-Seria melhor avisá-los que estás bem?

-Não. Puseram-me fora, acreditaram nas palavras de psicólogos imbecis. Que eu havia de me cansar da rua. Quando o que eu precisava era que me amassem sem reservas. Que atendessem ao eclodir de mim como pessoa. Que se confiassem em mim.

Parou. Os olhos febris e suores pelo rosto. Os olhos castanhos, chocolate, a olhar os panfletos em cima da mesa dos retratos. O corpo a contorce-se em espasmos incontroláveis.

-O que foi? Coloquei todo o  mel possível na voz, quase ciciando as palavras.

Os olhos dela nos panfletos, a levantar-se, encolhida, agarrada a si própria, os braços magros em volta do corpo, a chegar à mesa, a poisar a mão no objecto de toda a fixação, o sonho, a libertação afrodisíaca. Um gesto brusco e o ar desvairado na procura, de quê, ainda.

Os meus olhos em ela, como que guiando o sentido da vontade.

-Não! O tratado! O Pacto! Ou lá o que foi que assinei. Quase um grito alucinado, a fugir do nada que não sendo é quase tudo.

Voltou, deixando os panfletos no local exacto onde estavam. Não já para a cama, mas deixando-se escorregar em tremuras, num canto do quarto, o mais escuro dos quatro, continuamente agarrada a olhar aquele homem que eu sou que não a quisera ter como tantos outros e a perguntar-se porquê. Que fazia ela ali, a sofrer dores insuportáveis. Se bastava uma simples dose do produto. E outra. E outra até à finitude de toda a matéria que ainda era.

Foram oito dias das férias. Fechados os dois, no quarto amplo de cortinas corridas. O comer encomendado pela Net. a langerie umas roupas bonitas para que se gostasse, os sapatos. Todos os dias um banho, as minhas mãos sobre o seu corpo a ganhar forma.

Três dias a implorar, ela, em delírios lancinantes.   Por mais de uma vez segurara os panfletos entre as mãos trémulas e por entre soluços os largara.

Ao oitavo dia, eu tinha adormecido, por um momento. Acordei ao bater de palmas repetidas. O primeiro olhar foi para a mesa dos retratos. O coração em estrondos de batuques frenéticos. Desapareceram. Os panfletos de droga não estavam lá.

 Olhei em volta e na expressão de espanto dos seus olhos, a imagem raiada de luz, em catadupas de luz, como um sol dos princípios do mundo, intenso, espalhando sonoridades na luz. como se um coro de meninos entoasse uma canção de amor.

O vestido vermelho cingido no corpo renovado de carne. Os olhos com uma expressão tão viva de felicidade. Sobretudo os olhos. Castanhos chocolate.

O vermelho sangue do vestido. O cabelo brilhante caído a raiar os ombros a descoberto pela cava do vestido.

Olhou a mesa. os panfletos que haviam desaparecido. E o riso dela, cristalino, aberto, confiante a levantar a moldura de criança em cima da mesa, deixando ver os pacotinhos. o papel branco sujo.

Levantou-se, os olhos toldados e abraçou aquele corpo bem cheiroso de aromas únicos, naturais, as mãos dele nas faces da menina bonita que ela se transformara, macias agora,   os braços, os seios a voltarem a uma normalidade estranha ao corpo de antes.

Abraçou o corpo em êxtase.

-Minha menina! Minha menina! Como tu estás linda e vistosa. Bela na tua totalidade.

Como eu amo o que tu és agora. Um amor diferente de todas as espécies de amor. Um amor da ideia que consubstancias na forma do teu ser absoluto. Um amor da ideia de amor que é este sentir o outro a mexer dentro de nós, como sendo uma parte visceral chipada num lugar inacessível, porque é alma. Vou amar-te sem limites e mimar-te até ao fim de todos os fins

E a caminhada ainda é tão longa.

 

 

 

 

 

 

 autor:  neo -  jrg

 

26
Jun09

DIA INTERNACIONAL DO COMBATE ÀS DROGAS-Blogagem Colectiva ( I )

NEOABJECCIONISMO

 a minha participação: neo- jrg   ( I )     

 

 

 

 

 

 in

 CD - Lado B  blogagem colectiva

 

Que bom ver-te, meu menino! E como estás bonito!

Há quanto tempo não te via, os olhos brilhantes e o rosto cheio de carne sadia. O falar fluente, a alegria, o abraço forte, o beijo.
Fico a olhar os teus gestos decididos a desfazer a mala. A arrumar tudo meticulosamente.
Há vinte anos que te não via e só guardava a tua imagem de menino. Lindo, de olhos grandes, castanho-escuro, os caracóis em revolta na cabeça de sonhos. E o sorriso. O brilho do teu olhar sobre o sonho.
Voltaste a sorrir, como quando jogávamos à bola na mata em frente, tão perto do mar, e te fazia perder para ouvir os teus protestos, porque só querias ganhar. Ganhar sempre, ser o primeiro e pergunto-me porquê? porque de deixei ir?, porque te deixaste ir?, que forças te arrastaram na enxurrada da indignidade?
Que bom ver-te meu amor. Sentir que não te levaram de todo. Que ainda resistes e estás mais determinado do que nunca em vencer.
Bem podias  ter vindo mais cedo. A minha mão esteve sempre estendida do lado de fora do mundo em que caíste.   Em frente de ti. E sempre que te via, acenava-te. Gritava o teu nome. Filhoooo !!!...no silêncio que me doía, na angústia da tua ausência, tu, ali tão perto e longe, longe...
As novidades? Estamos bem, como vês. Chegou uma menina encantadora que cresce plena de felicidade. A neta, tua sobrinha. O pai está desempregado A mãe, continua batalhadora. Estamos bem, como vês. Endividados, nas mãos de agiotas legalizados,  mas havemos de chegar a porto seguro, estamos bem, como vês, porque tu és vivo e estás de novo do lado em que estamos.
Que bom ver-te com a esperança embandeirada. O hino de confiança. A paz que regressou ao teu coração desfeito em rotura com o mundo. O fulgor rutilante dos teus olhos, de novo.
Que bom ver-te, fruto de um grande amor , quando já desesperava de te ver.
Bem-vindo a casa e fica, se vieste para ficar. 
 
( palavras de pai para filho acabado de chegar da comunidade terapêutica, para se fazer à vida) neo-jrg
 
A matemática, esse quebra-cabeças dos Portugueses em geral, não é uma ciência mítica só ao alcance de alguns iluminados, mas porque é manipulada  ao sabor de interesses que ainda persistem e consideram que  "em terra de cegos quem tem olho é rei", continuamos a navegar em teorias de combate ao insucesso , condenadas a manter os níveis aceitáveis de cegueira colectiva.
Actualmente a proliferação do consumo de drogas por amplas camadas de juventude de todo o mundo, tornou-se num flagelo que nenhum governo tem conseguido estancar.
Desde sempre houve consumo de drogas, que não eram proibidas, nem atingiam os preços a que são vendidas nas ruas, nem geravam fabulosos lucros. Em consequência, quem sofria de stress por drogas comprava-as onde era possível ou optava pelo vinho. Era uma minoria, contestatária, talvez, das regras de convivência que se iam alterando. Sinais de rebeldia que prenunciavam mudanças radicais.
Eu penso que a partir da eclosão do Maio de 68, se espalha a ideia reivindicativa de que vale tudo. É proibido proibir tudo. Amor livre. Abaixo os poderes instituídos . A inalação de drogas pelo fumo avança em todas as direcções. As democracias tentam resistir, mas rapidamente os senhores da finança vêm ali um filão inesgotável, e são eles que financiam o estado e que o controlam. É para eles que as leis são manipuláveis, no esgrimir de interpretações por magistrados e advogados que as leis permitem. O legislador pondera os riscos da descapitalização e no meio dos artigos que condenam, há sempre uma alínea que descriminaliza. Não há crimes de colarinho branco nem lavagens criminosas de dinheiro derivado de produtos considerados ilícitos, porque o dinheiro é muito e compra tudo o que se apresente como obstáculo, é uma teia sem aranhas. O povo diz:"quem cabritos tem e cabras não cria de algum lado lhe vem..."
Aqui, em Portugal ,o consumo de drogas disparou com o advento da Democracia, não por culpa da Democracia, antes por uma coincidência de tempo, porque estamos sempre atrasados na ventura e na desgraça.
O consumo e o tráfico são proibidos e condenados com pena de prisão.
Milhares de famílias são assoladas por esta praga, Adolescentes instigados ao consumo sobre os mais variados pretextos de afirmação pessoal, de desinibição. de ser mais forte. Jovens, meninas, lindas que foram, agora enrugadas, prostituídas, devassadas.
Os pequenos cartéis de tráfico organizam-se. No interior das prisões superlotadas continuam a traficar e a consumir. Nas ruas os chamados pequenos delitos. A saga da moedinha para o arrumador que surge, do nada quando já tínhamos quase arrumado o carro.
Roubam os pais, a família, os amigos. Vendem tudo o que tem comprador e há quem compre É um negócio de lucros fabulosos, onde se vende tudo até a dignidade.
O estado, nós todos, financiamos as medidas ditas profiláticas que o governo implementa, de apoio financeiro às comunidades terapêuticas de reinserção, aos tratamentos em ambulatório, com resultados deficitários de recuperação efectiva e duradoira, nascem novas clínicas especializadas , criadas por psiquiatras e outros técnicos terapeutas, algumas possivelmente financiadas por dinheiro proveniente da venda de drogas e destinadas a uma camada da população financeiramente desafogada.
As polícias investem na formação especializada no combate ao tráfico. Os criminosos detidos em resultado das investigações são postos em liberdade. Presos são os consumidores, por consumirem e por roubarem. A droga e dinheiro apreendido nas operações, desaparece em circunstâncias misteriosas.
Os verdadeiros agiotas do tráfico continuam impunes. Participam, até, na discussão. Influenciam politicas. Corrompem influências. E seguem na matança intelectual e física do que melhor tem um povo, uma nação.
Surgiu o HIV, as hepatites B e C proliferam.
As famílias a lutar contra a insolvência absoluta. Sem ajudas oficiais, dependentes da força que os catapulta para a frente, da ajuda de uns poucos amigos e familiares que a dinâmica vai gastando,  a ganharem tempo. 
Condenadas, até, por não terem sido capazes de evitar a desgraça.
Alguns países adoptam medidas para liberalizar o consumo de drogas, que passa a ser disponível em farmácias e locais apropriados criados para o efeito.  As noticias sobre a eficácia: se aumentou-reduziu-estagnou, não são distribuídas na mesma dimensão.
Por cá, e não só, os arautos tentam explicar-nos em equações algébricas e outras engenharias matemáticas, que a liberalização não é possível. Iria criar mais dependências, facilitar a transacção entre estados!?...aumentar o consumo, etc.
E nós a percebermos que dois e dois são quatro em qualquer circunstância e que somados sucessivamente, chegamos aos milhões da ganância, que matam e morrem pela ganância de viverem na abastança erguida sobre o sofrimento, a dor e a desdita de quem vê um adolescente primoroso ser arrastado impunemente nas águas sórdidas da mentira.
Toda a gente com bom senso sabe que a solução é só uma: liberalização. Tratamento eficaz com disponibilização de todos os meios, clínicos, ambulatórios, psiquiátricos, de entreajuda e acompanhamento de proximidade. Informação desde os primeiros anos de escola, a consciencialização de professores e auxiliares de educação. Todos, de uma forma organizada, que UTOPIA, nem o facto de alguns dos filhos dos poderosos da droga serem atingidos pelo problema os desarma, em todas as frentes.
Tanto os que são contra como os que são a favor, os que só tem a perder com os negócios das drogas, sabem que a liberalização, a venda livre dos produtos em farmácia, acabaria com o tráfico. A determinação dos estados, onde a droga é produzida, para reconverter as culturas, é outra Utopia, sabendo como há estados totalmente dependentes do comércio de drogas.
O problema está no que está em jogo: dinheiro, poder, ganância. A vida e a morte. O filão é imenso e corre a favor  das máfias que controlam e dinamizam o comérico de todas as drogas. Há uma crise mundial de valores. O Planeta debilitado pela poluição e pelas atrocidades cometidas ao longo dos dois últimos séculos. A falência dos sistemas financeiros. O desemprego generalizado e a falta de alternativas.
É só imaginarem a quantidade de gente que beneficia com a proibição e crime sobre o consumo. A corrupção das consciências, a coacção sobre as vitimas e as famílias.  O tráfico de influências.
Os argumentos dos que são contra a liberalização do comércio das drogas: Paraíso para os traficantes. Mentira, tudo palavras de conveniência
E quanto aos traficados? Crianças, jovens, famílias!.. engajadas neste esgrimir de posições, tratados em subserviência, com listas de espera nos espaços de reinserção, sem um programa consequente que os insira no mercado de trabalho, deixados à sua sorte num mercado à míngua. Estigmatizados. Frágil é a esperança que alimenta a auto-estima em reconstrução.
Consciencializar, difundir  pelo mundo a palavra de ordem de não às drogas, ser cada um um transmissor de esperança, não aproveitando-se, por exemplo, duma menina que se oferece para a prática de fantasias sexuais para satisfazer à ressaca, mas estender a mão à esperança com esperança.
 
 autor: neo - jrg
09
Nov08

DESAFIO DE LALA (CARLA) de ANGRA DO HEROÍSMO-BLOG OURO

NEOABJECCIONISMO

 

 NOTA: Porque foram colocados dois desafios iguais e em simultâneo ao Samueldabo, resolvemos editar em dois blogs distintos e com a mesma relevância, para não ferir sensibilidades. Mas houve um pequeno acidente com este post e saiu tarde...quando devia ter saído ao mesmo tempo, as minhas desculpas.

João

Instruções:

1 - Colocar uma foto sua :

 

 

 

 

2 - Escolher uma banda/artista:

 

Maria Bethania 

 

 3 - Responder às perguntas que fazem parte do desfio somente com títulos de canções da banda/artista que escolheu:

 

És Homem ou Mulher?

 

 Pierrot Apaixonado

 

 Descreva-se:

 

 Escaldante

 

O que os outros acham de si:

 

 Que falta você me faz

 

Como descreves o teu último realcionamento:

 

  Amor dourado - Amando sobre os jornais- Só me fez bem

 

 Como escreves o estado actual da tua relação:

 

 Eh o amor - Felicidade brisa - a moça do sonho

 

Onde querias estar agora?

 

 seu corpo

 

O que pensas a respeito do amor?

 

 

 A noite das máscaras

 

Como é a tua vida?

 

 Para quê mentir - Queda d'água

 

O que pedirias se tivesses só um desejo:

 

Sonho impossível 

 

Escreve uma frase sabia:

 

 

 Amigo...Amiga...Estou aqui...

 

 

 

 

 

4 - Passar o desafio a 4 pessoas:

 

 http://mimienanico.blogspot.com/http://nayokonakamura.blogs.sapo.pt -

   

 http://pensamentos-de-margarida.blogs.sapo.pt

 

 Marianna :D

 

 

23
Out08

LUIS PACHECO (DIVULGAÇÃO)

NEOABJECCIONISMO
Ele tinha uma doença genética que desenvolveu e se propagou a outras espécies congéneres, mais tarde catalogada como doença ou vírus da ALEGRIA.
Relembro o homem que vejo na imagem de um ser alto, esguio, de olhos a saírem das órbitas, devido em parte ás grossas lentes, e com um sorriso de sarcasmo, ou malicioso, que ostentava mesmo nos momentos de maior contrariedade.
Um amante apaixonado de viver tudo e de tudo, em maldição absoluta, porque não é possivel viver infectado de ALEGRIA e ser-se abençoado, num reino onde imperava a tristeza.
  j.r.g.
 
                 --------------------------------------------------------------------------------------
Da entrevista:
O Estado Novo prendeu-o por politiquices e por ter amado menores. Frequentou o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras e a meio mandou o curso dar uma curva ao bilhar russo. Entretanto, a Inspecção de Espectáculos admitiu-o como agente fiscal, mas sedentarismo não combinava com o seu feitio. Preferiu a situação que considera invejável: desempregado. Depois, funda a editora Contraponto onde a corrente surrealista viu muitos dos seus autores publicados. Crítico literário e cultural, tradutor, colaborou em diversos jornais e revistas, ‘O Globo’, ‘Afinidades’, ‘Seara Nova’, ‘Diário Popular’. A sua escrita caracterizada de irreverência e de poesia esbofeteou a torpeza intelectual e desafiou o lápis azul da censura Salazarista. Luiz Pacheco, que, em tempos, se fez sócio do Benfica para ir aos bailes e do Sporting para ir à natação, já não dança e não aprendeu a nadar. Apesar de ter andado perto do fundo, acaba por vir sempre à tona e ao seu ritmo.
_Tinha dito que não saía do lar do Príncipe Real. Afinal, enganou-se. Vive com o seu filho.
Um gajo também se engana! A vida nos lares é uma espécie de regimento. Horários. E mais horários. E eu estive em três. O pior era a convivência com os moribundos e as moribundas. Deprimente. Os tipos iam buscar os velhos às camas e espetavam com eles num buraco a que chamavam sala do convívio. Qual convívio? Convívio nenhum! Velhotes com os olhos fechados e outros que estavam nas últimas. Ah... e havia um animador que se punha a contar de um até ao número dez. Quando a gente pensava que o tipo ia fechar a goela, desatava a dizer a numeração em forma decrescente. Ele fazia coisas incríveis! Mandava pôr a mão para cima, para trás, para os lados. Eu sei lá. O último lar era muito mau. Tinha lá uma mulata que era cleptomaníaca. Roubou uma velha muito afanada e eu também fui roubado.
_O Luiz é que não está nada afanado...
Eu não estou afanado? A miúda deve estar a brincar! Eu não estou nada bem. Tenho muitas doenças, talvez umas vinte e três. Agora tenho uma m. chamada incontinência. Para um gajo é muito mau andar de fraldas. Mas a vista é a pior das mazelas.
_Se fosse menos teimoso já tinha sido operado.
Não conte com isso! Tenho medo. E não é da anestesia. Medo das consequências. A merda da operação pode provocar um acidente cardiovascular e já viu o que era? Dizem que é coisa muito simples, mas isso são conversas. Nessa eu não caio!
_Voltar a ler não é um estímulo?
Oh miúda, eu já li muito. Nem queira saber o que eu já li. Agora é a minha filha que me lê os artigos de jornais e algum livro que eu queira ler. Ocupo o raio do tempo a ver a RTP Memória. Estou a ver coisas que nunca tinha visto. Como por exemplo, o Júlio Isidro, o Zip-Zip. Gosto de ver velhadas. Entretenho-me com o humor fabuloso do Vasco Santana, do António Silva. O Solnado é uma merda. Uma invenção. Um disparate. O Herman José é diferente. Basta ser de origem alemã para saber o que está a fazer .
_O melhor aluno do Liceu Camões gosta de velhadas...
Não me faça rir. Mas fui o melhor daquela malta toda. Entrei em 1936 e fiquei lá oito anos. Sentava-me sempre na carteira da frente, porque os meus olhos já eram dois sacanas. O avô desse tipo chamado Eduardo Prado Coelho foi meu professor. Nós cagávamo-nos no gajo.
_Quem eram os seus colegas?
Lembro-me do José Manuel Serra, que foi director do Teatro Nacional de São Carlos, Lobo Saias, que chegou a ministro, e outros.
Os liceus não eram mistos, portanto, miúdas não eram pêras doces...
Imagine que nem podíamos chegar ao pé de uma escola feminina. Quando chegou a altura da universidade, o convívio não foi fácil. Não estávamos habituados. Pedir um lápis emprestado era cá uma trabalheira. Só para não haver contacto, deixávamos cair o raio do lápis ao chão.
_Entretanto, os contactos melhoram... esteve preso no Limoeiro devido a aventuras amorosas.
Prenderam-me por razões políticas e por ter desflorado umas garotas que eram menores. Mas atenção: eu também era menor! Uma ocasião foram duas irmãs ao mesmo tempo. Foi cá uma chatice... Antigamente, rapazes e raparigas faziam o que hoje fazem, mas com a diferença: não tinham o à-vontade que existe hoje. A pílula foi a estrondosa revolução. Ouvir dizer que, até, os homens já podem tomar essa m. Eu nunca tomei. E sou contra o aborto. Hoje em dia as garotas têm muitas facilidades...!
_Um rol de contraceptivos e a pílula do dia seguinte
O que é isso? O comprimido do dia a seguir à cegada?
_Sim. É contra o aborto e a favor da despenalização?
É claro! Prender moças é um autêntico disparate. Mas há malta que diz que aborta porque rejeita ter filhos indesejados. Ouça cá uma coisa: uma rapariga que se deita com um rapaz sabe do risco. E há outra malta que diz que não consegue criar filhos. Mentira. É só conversa. Eu sem cheta, desempregado, tenho oito filhos. Uma vez, fui deixar um filho à Casa Pia. Se os ‘gansos’ eram bem tratados? Coitados. Aquilo era uma miséria.
_Voltando à prisão. Como era no Limoeiro?
Uma prisão para os gajos que esperavam julgamento. Havia batota que não era a feijões, mas a dinheiro. Estava lá um enfermeiro tarado que vendia penicilina misturada com água. O refeitório era umas mesas corridas e havia um tipo que distribuía a comida. Os acordos davam direito ao prato ficar mais cheio. Naquela merda havia estratos sociais. A Sala dos Menores, a Sala dos Primários, para os estreantes, a Sala Comum, que era para a maralha, e a Sala dos Bacanos, onde estavam aqueles que tinham conhecimentos fora da prisão. Como eu. Da segunda vez que estive dentro, o Artur Ramos telefonou ao pai, que era director-geral da Penitenciaria e pôs-me cá fora.
_Um homem que nunca gostou de regras nasceu no seio de uma família de militares...
Não venha com as perguntas feitas de casa. O meu avô materno era capitão-de-mar-guerra, engenheiro maquinista, e o meu avô paterno, coronel da artilharia, dirigiu o Arquivo histórico-militar. Eram militares, mas pareciam ser outras pessoas. Tinham boa cara. O pai do meu pai, aquando da primeira incursão monárquica, comandada pelo Paiva Couceiro, foi a Chaves dar umas bombadas nos canhões e teve de fugir. O meu pai estava a tirar o curso na Faculdade de Letras para ser diplomata, mas como aconteceu a Primeira Grande Guerra, a diplomacia foi para o galheiro. Não acabou o curso. Nem eu.
_Por razões diferentes?
Sim. Os professores na Faculdade de Letras eram uns chatos. Excepto o Vitorino Nemésio (que me deu 18 valores) e o Delfim Santos. Nunca engraxei o Nemésio, eu não era igual ao Urbano e ao David. Mas espere aí, deixe-me falar do ano que antecedeu a faculdade. Em 1943, quando acabei o liceu, o meu pai disse que não tinha dinheiro para eu estudar na Faculdade. Falou com o professor João de Brito, que me deixou assistir às aulas. Eu era um aluno fantasma. Não me perguntavam nada, o que era maravilhoso. Nos intervalos ia para a biblioteca. Devorei Gil Vicente, Garcia de Resende, Fernão Lopes e outros. Por essa altura comecei a dar explicações. Portanto, aprendia e ensinava. Foi um ano em cheio! No final, fiquei muitíssimo bem classificado no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, no Curso de Filologia Romântica, e consegui ficar isento das propinas.
_Saiu da faculdade e, em 1946, foi admitido como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.
Aquilo era uma treta. Não inspeccionávamos nada.
_Quando é que funda a editora Contraponto?
A editora começou a funcionar em 1951, logo depois do primeiro número da revista. Nasceu no ensaio de uma terceira via e só tinha um critério: os gajos do Estado Novo não podiam entrar. Vivia um bocado à mercê do facto de eu e o Jaime Salazar sermos amigos. Quando foi publicado o ‘Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano’, de Mário Cesariny, o Jaime ficou f. Pensava que a editora era só para ele. Mais tarde, o mesmo aconteceu com Cesariny, quando Herberto apareceu. Razão tinha o Gaspar Simões em chamar- -me ‘O sacristão do Surrealismo’, por publicar aquela gajada. Não faz muito tempo, vendi a editora à irmã do Manuel Alegre por um preço de m..
_Era amigo de Cesariny?
Essa pergunta traz água no bico. Dizem que nós éramos amantes. Um disparate. O gajo não fazia o meu género. Eu nunca tive a mania de Paris. Ele tinha.
_A sua colaboração nos jornais começou no ‘O Globo’, em 1945, e ainda há dez anos escrevia na imprensa
O Nicolau Santos, que na altura era director do jornal ‘O Público’, convidou-me para escrever uma crónica. Os gajos até pagavam bem. Mas tiveram o azar de anunciar Luiz Pacheco escritor polemista. Dava-lhes jeito que eu desse porrada. Mas durante meses não lhes fiz a vontade. Podem contar comigo para dar porrada, mas jamais por incumbência.
_É verdade que, uma vez, enquanto traduzia um livro, esteve quase para ser publicado um palavrão?
Publicado não digo, mas aquilo fez-me correr. Eu estava a traduzir um livro para crianças e havia uma palavra cujo significado em Português eu não encontrava. Para não me esquecer escrevi a vermelho c. Quando me lembrei... falei à editora, que me disse que o livro já estava nas mãos do revisor. Corri para a casa do gajo. E lá estava o c. marcado a vermelho, mas fui a tempo. O c. foi substituído por penacho.
_É autor de muitos livros, mas nunca escreveu romances.
Porque é preciso ter disciplina. Mas não é como escritor que posso ser importante. Se me perguntarem da minha importância é como editor. Editei muitos livros que eram muito baratos. Tinha bons autores, Raul Leal, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny. Jamais editaria, por exemplo, o Fernando Namora. Ele era um aldrabão. Ou o José Agualusa, que não escreve nada. É um pateta alegre.
_O que é preciso para escrever bem?
Ler muita coisa. Estar atento. E há gajos que escrevem sem nunca terem lido uma frase.
_Gosta da escrita de António Lobo Antunes?
Muito. Gosto quando ele fala do bairro onde nasceu, Benfica. Tem muitas qualidades e anos de escrita. Mas é um bocado apanhado da pinha. Também tem a maluqueira de dizer que não consegue viver sem escrever. E tem razão. Ele é o escritor mais internacional de Portugal.
_E José Saramago?
Também, embora de maneira diferente. Mereceu o Nobel. Saramago e o Lobo Antunes têm uma coisa em comum: são escritores que já só escrevem para o estrangeiro.
_O que nos diz dos políticos?
São uns m. Comparados com eles próprios. Aquela que foi ministra das Finanças era uma tipa séria, mas era cá um camafeu.
_Gosta do José Sócrates?
Quem é? Não o conheço.
_Mas gosta de Pedro Santana Lopes?
É um ‘bom vivan’. Não deixou obra nenhuma, mas sabe viver. Andava nas discotecas e estes gajos – o pequeno, o gajo que é quase anão – fez-lhe a folha. O Santana é um senhor. Gosta das noites. E bebe o seu copinho. Eu deixei de beber há uma semana. Ao almoço bebia vinho – tinto, pois está claro. Quando se fala em vinho fala-se em tinto.
_João Soares, quando era presidente da Câmara Municipal de Lisboa, fez-lhe uma visita e trouxe-lhe umas garrafas de tinto.
E que belo tintol! Apareceu no Natal, com um funcionário. Trouxe-me vinho, um belo presunto e livros. Vinha com a ideia maluca de eu fazer um artigo sobre o governador do Costa do Castelo.
_O País reconhece as pessoas?
Não podemos falar de um só País. De Lisboa ao Porto existem dois países ou, talvez, existam quatro países em Portugal. Por exemplo, o Mário Soares, quando era Presidente da República, deu-me 650 contos. Uma vez, no Chiado pedi-lhe 20 paus emprestados. E ele deu-mos. Este presidente, o actual, que tem aquela cara, não me deu nada.
_Vive de alguma pensão?
Tenho um subsídio de 120 contos, graças ao Alçada Baptista. E também ao Balsemão, que teve a feliz ideia de inventar o decreto do mérito cultural. O Santana despachou um decreto que favorece pessoas que estão na minha situação. Mas não é por isso que gosto do rapaz. O tipo sabe o que é bom. O que é bom para mim são umas garotas, que vêm cá de manhã para me fazerem a higiene. Não é mau.

QUESTIONÁRIO

Um País... Montijo

Uma pessoa... D. Afonso Henriques

Um livro... ‘Gustavo, o Estroina’, de Paulo Koque

Uma música... ‘Variações’ de Goldberg

Um lema... Não me lixem. Não me chatem

Um clube... Clube Jardinense, o clube do Montijo
 
 
Miriam Assor
 

(retirado da net de uma entrevista ao Jornal Correio da Manhã.)

20
Out08

A POESIA DE MARIA TERESA I

NEOABJECCIONISMO

                  água

 

Chove! E a água corre...

corre pelo chão

O vento Norte

sopra forte

como um tufão

vindo do além

Chove! E a água corre...

corre pelo chão

Parece alguém

fugindo à sorte

temendo a morte

que cedo ou não

sempre vem

     maria teresa

 

                       por de sol 

 

Há um céu vermelho

de vários tons quentes

um mar prateado sereno

um quadro electrizante

que dá forças...aquece a alma

a noite cai devagarinho

de mansinho para não assustar

                             os duendes

e docemente penetrante

a primeira estrela brilhando

parece dançar alegremente

sinal de vitalidade que se sente

neste por de sol resplandecente

que sempre acentua o nascer

das almas simples e o morrer

                                    eternamente

            maria teresa

 

23
Set08

SER NEOABJECCIONISTA - OU A QUESTÂO DE DAR E TIRAR A CONFIANÇA

NEOABJECCIONISMO

O QUE É O NEO-ABJECCIONISMO


Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem. Tenho trinta e sete anos, casado, lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. Também não me apetece fazer visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Perdi mãe e perdi pai, que estão no cemitério de Bucelas. Perdi três filhos – a Maria Luísa, o João Miguel, o Fernando António –, que estão vivos, mas me desprezam (e eu dou-lhes razão). Perdi amigos. Perdi o Lisboa; a mulher, a Amada, nunca mais a vi. Perdi os meus livros todos! Perdi muito tempo, já. Se querem saber mais, perdi o gosto da virilidade; se querem saber tudo, perdi a honra. Roubei. Sou o que se chama, na mais profunda baixeza da palavra, um desgraçado. Sou, e sei que sou.
Mas, alto lá! sou um tipo livre, intensamente livre, livre até ser libertino (que é uma forma real e corporal de liberdade), livre até à abjecção, que é o resultado de querer ser livre em português.
Até aos trinta e sete anos, até há bem pouco tempo ainda, portanto, julguei que podia, era possível, ser livre e salvar-me sozinho, no meio de gente que perdeu a força de ser (livre e sozinha), e já não quer (ou mui pouca quer) salvar-se de maneira nenhuma. Julgava isto, creiam, e joguei-me todo e joguei tudo nisto. Enganava-me. Estou arrependido. Fui duro, fui cruel, fui audaz, fui desumano. Fui pior, porque fui (muitas vezes) injusto e nem sei bem ao certo quando o fui. Fui, o que vulgarmente se chama, um tipo bera, um sacana. Não peço que me perdoem. Não quero que me perdoem nada. Aconteceu assim.
Eu para mim já não quero nada, não desejo nada. Tenho tido quase tudo que tenho querido, lutei por isso (talvez o merecesse). Agora, já não quero nada, nada. Já tudo, tanto me faz; tanto faz.
Agora, oiçam: tenho dois filhos pequenos, o Luís José, que é o meu nome, e a Adelina Maria, que era o nome de minha Mãe. O mais velho tem 4, a pequenita dois, feitos em Fevereiro, a 8. Durmo com uma rapariga de 15 anos, grávida de sete meses, e sei que ela passa fome. É natural que alguns de vocês tenham filhos. Que haja, talvez, talvez por certo, mães e pais nesta sala. Não sei se já ouviram os vossos filhos dizerem, a sério, que estão com fome. É natural que não. Mas eu digo-lhes: é essa uma música horrível, uma música que nos entra pelos ouvidos e me endoidece. Crianças que pedem pão (pão sem literatura, ó senhores!) pão, pãozinho, pão seco ou duro, mas pão, senhores do surrealismo, e do abjeccionismo, e do neo-realismo e mesmo do abstraccionismo! Este mês de Março que vai acabar ou já acabou, pela primeira vez, eu ouvi os meus filhos com fome. E pela primeira vez, não tive que lhes dar. Perdi a cabeça, para lhes dar pão (ainda esta semana). Já não tenho que vender, empenhei dois cobertores, e um nem era meu. Tenho uma máquina de escrever, que é a minha charrua, e não a posso empenhar porque não a paguei; e tenho uma samarra, que no prego não aceitam porque agora vai haver calor e a traça também vai ao prego... Já não tenho mais nada. Tenho pedido trabalho a amigos e a inimigos. Humilhei-me, fiz sorrisos. Senti na face, expelido com boas palavras e sorrisos, o bafo da esperança, da venenosa esperança; promessas; risinhos pelas costas. Pedi trabalho aos meus amigos: Luís Amaro, da Portugália Editora; Rogério Fernandes, de Livros do Brasil; Artur Ramos; Eduardo Salgueiro, da Inquérito; dr. Magalhães, da Ulisseia; e Bruno da Ponte, da Minotauro, aqui presente, decerto. Alguns têm-me ajudado; mas tão devagarinho! tão poucochinho!
Sim, porque eu não faço (já agora, na minha idade!) todos os trabalhos que vocês querem! Só faço, já agora, coisas que sei e gosto: escrever umas larachas; traduzir o melhor que posso; mexer em livros, a vendê-los ou a fazê-los.
Nem quero vê-los a vocês, todos os dias! Ah! Não! Era o que me faltava! Vocês têm uma caras! Meu Deus, que caras que nós temos! Conhecem a minha? Vão vê-la ali ao canto, na folha rasgada do meu passaporte (sim, porque viagens ao estrangeiro (uma...) também já por cá passaram...) Viram? É horrível!... A mim, mete-me medo! Mas é uma cara de gente. E isso não é fácil.
Dizia eu: eu quero trabalhar na minha máquina, sozinho, ou rodeado da minha Tribo: os miúdos, uma mulher-criança, grávida. E, às tardes, ir passear pela Avenida Luísa Todi ou na ribeira do Sado. Acho que nem era pedir muito. E para mim, é tudo.
Já pedi trabalho a tanta gente, que já não me custa (envergonha) pedir esmola. Confesso-lhes: até já o fiz, estendi a mão à caridade pública, recebi tostões de mãos desconhecidas, de gente talvez pobre. E tenho pedido emprestado, com a convicção feita que não o poderei pagar. É assim.
Eu para o Luiz Pacheco, repito, não quero nada, não desejo nada, não preciso de nada; mas para os bambinos! E para o bebé que vai nascer! Roupas; leite; pão; um brinquedo velho... Dêem-me trabalho! Ou: dêem-me mais trabalho.
E para findar esta Comunicação, remato já depressa:

Peço uma esmola.

 

(Alocução de Luís Pacheco numa conferência pública)

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- 

A Minha  Reflexão...

Não se pede nem se dá, interioriza-se, sente-se e é como uma mola do interior de nós que se movimenta na direcção da coisa ou ser da nossa atenção.

Dar, não nos dá o direito de exigir vassalagem. Nem de retirar a coisa dada se não for feito o uso para que a demos. Dar é uma emoção dum dado momento que nos satisfaz. É uma necessidade nossa. Quando retiramos o que demos em determinado momento, não nos assiste o direito de retorno de nada. Não existe retorno do que foi gasto em ideia ou uso.Dei-te confiança, fizeste mau uso do meu confiar, logo, retiro-te a confiança. Devolve-ma...

O que é dar confiança?

Dar confiança pressupõe ter recebido confiança suficiente para poder retribuir. Ninguém dá nada a alguém  se não tiver tido um retorno. Madre  Teresa recebia a dádiva da Paz interior pela sua devoção a causas humanitárias. Entre o comum de nós, humanos, o hábito ou o acaso de dar, é sinónimo de ter recebido antes uma contrapartida, ainda que emocional.

Dar é um acto instantâneo face a um recebimento. É  reciproco.  Só possivel quando duas pessoas se cruzam e se sentem. Está dado.

Penso que não é estimável que alguém retire confiança a outrem e o faça anunciando tal decisão. É uma violência psicológica. A pessoa em quem se confia deixou de ser confiável no todo ou em parte, para um alguém, não para o todo, sequer para o todo de quem retira a confiança.

Na conferência de Luís Pacheco, ele explicita-se. Dêem-me trabalho, mas não um trabalho qualquer. Pede pão para os filhos e já agora, sem o dizer, que seja suficiente para o vinho.

É um pedido desesperado que obtém de quem dá duas satisfações de bem estar. A primeira, a emoção do quadro pintado por quem pede e que provoca a reacção de dar , a segunda, a emoção do acto de dar, efectivo. Sem a emoção anterior não há emoção posterior. Sem a dádiva que capta a atenção , não há dádiva de facto.

Falarmos subjectivamente do que nos interessa sem atendermos ao interesse do outro, é uma forma comum de manipulação dos interesses próprios em absoluto.

Pensarmos que é possivel comprar ou subjugar a consciência do outro, a sua liberdade de pensamento,  com actos que consideramos subjectivamente  suficientes para o manter amordaçado, subserviente a nós, é ingenuidade gratuita ou prepotência dos valores de que nos julgamos possuídos.

Eu considero, ainda, que mais grave é o processo Kafquiano de julgar os procedimentos de um individuo, apenas pela avaliação que alguém faz do seu comportamento e dos reflexos que ele pode induzir ou reflectir na sua própria visibilidade, a  do julgador, aos olhos de outros. Como se fosse indissociável um do outro, o que pratica a acção do sujeito que se vê implicito na própria acção.

 

 

 

 

 

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