Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

NEOABJECCIONISMO

O abjeccionismo baseia-se na resposta de cada um à pergunta: QUE PODE FAZER UM HOMEM DESESPERADO QUANDO O AR É UM VÓMITO E NÓS SERES ABJECTOS?- Pedro Oom .-As palavras são meras formalidades... O NEOABJECCIONISMO, n

NEOABJECCIONISMO

O abjeccionismo baseia-se na resposta de cada um à pergunta: QUE PODE FAZER UM HOMEM DESESPERADO QUANDO O AR É UM VÓMITO E NÓS SERES ABJECTOS?- Pedro Oom .-As palavras são meras formalidades... O NEOABJECCIONISMO, n

15
Ago08

O C O X O...

NEOABJECCIONISMO

Manuel e a serra, o serrote, rompendo a madeira, rasg, rasg, rasg, numa profusão de sons que parecem monótonos mas que se compõem em outros sons menores e meios sons, os arfantes dos pulmões estorricados por milhares de cigarros, dando origem a uma magnífica sinfonia de um só instrumento .

Os pássaros chilreiam em cima da bancada improvisada, pavoneando-se perante os gatos deitados na areia do quintal, numa sonolência pacifica de mesa farta, ou constantemente adiada.

Manuel, de vez em quando faz uma pausa, retira o boné, limpa o suor que desliza pelo rosto encanecido, sulcado de veios profundos, acende uma ponta de cigarro e aspira com satisfação, o fumo azulado que adeja sobre nós na calma do dia, olhando em volta, os pássaros, os gatos e eu.

_ Sr Manuel, a minha estante está pronta?

Faz um gesto largo, os olhos pequeninos que já terão sido grandes, quando habitava a vasta região Beirã, no limite da Beira, , raiando o Ribatejo.

_Está a secar da cola. Tinhas pressa?

_Não, mas queria pagar.

Os olhos avivaram-se. Não ter que pedir adiantamento, como quem mendiga, como se não fosse a paga pelo seu trabalho, a sua arte. Esperara todo o dia que ele viesse. E a tarde ainda ia a meio. Vagueou o olhar em redor, como quem não tem nada para dizer.

Veio ter comigo, cumprimentar-me, coxeando, a bengala de madeira que fora feita por ele, o aparelho da perna que emperrava de velho, ou do uso, ou de defeito de fabrico. E falava-me do tempo. Sim, o tempo ele mesmo, a rotação, a translação, as estações do ano e como contentar a todos se cada um tinha do tempo  uma ideia própria, só deles,de cada um.Como se o tempo fosse pertença do ser, ou da alma.

E nem se davam em como a Terra girava sobre si e à volta do Sol, em como a suas imprecações recaíam sobre si próprios.

_Eles protestam, - fazia um gesto vago com a cabeça, _mas não há como fugir ou protelar, o tempo faz o seu percurso e arrasta com ele todos os elementos, os concordantes e os contraditórios, não há como fugir-lhe.

Senhor Manuel, vamos beber um copo

 

boulevard de la liberté

Autor:Horey

 

Era uma figura de pequeno recorte, baixo e magro, a cara escanhoada, as mãos calejadas da serra e da plaina, do martelo, das caricias na madeira, como se fosse uma mulher bela.

_Vamos lá. Mas voltando ao tempo, acredita que é o grande mestre que tudo resolve. Repara como num dado momento, uma situação que parece impossível de entender, um imbróglio, e no momento seguinte, a cada instante que o tempo avança, tudo se decide pró ou contra, mas decide-se. Deixa de ser. Porque não há futuro, só passado e presente,

só sabemos o futuro passado... quando já é passado...

E veio, arrastando a perna e contando como foi que veio para a Capital mugir as vacas de um conterrâneo que fazia pela vida  vendendo o leite e das maroscas em que o iniciaram, colocando um pouco de água em tantas partes de leite, que era para liquefazer, dado que vinha muito espesso.

Fala-me da sua experiência como condutor de sidcar. E como uma ferida mal tratada, na canela, o levou à amputação da perna e ao escoar de tantos sonhos que construíra.

Falou-me de como conhecera a Maria, sua mulher, de como a  engravidou num momento de paixão e prometeu casar e casou, porque era homem de uma só palavra.

Tiveram cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz. Mas este morrera de Tifo. Um desgosto que o marcou profundamente. Um filho varão.

A voz é arrastada. Tem bronquite, tosse e cospe num lenço que mantém nos bolso das calças, porque se recusa a cuspir no chão, nem para o ar...

Dei-lhe a estante a fazer, não que fosse uma necessidade absoluta, eu próprio a poderia ter feito, simples,as tábuas já cortadas na estância, uns pregos, a cola.  Dei-lha a fazer para que tivesse um trabalho diferente em que se empenhasse de raiz. Foi ele quem fez o desenho, as medidas, imaginou a cor que ficaria melhor na decoração da casa onde eu a ia colocar._Sr. Manuel, quanto é afinal a obra?

_Olha,  pá. Como vês está pronta. É só secar e aparar com um pouco de lixa nos locais da cola. Podes levá-la ainda hoje, mais logo, deixa o tempo agir, fazer o seu percurso_ os olhos nos meus olhos, a sopesar as palavras _ Pronto, são cem escudos. Tu pagaste a madeira, compraste a cola...

Os meus olhos nos dele, um sorriso. Tirei  da carteira o que tinha pensado e estendi-lhe as notas.

Agarrou-as pausadamente, sem pressas, como que envergonhado e de súbito, ao dar-se conta...

_Mas isto são 150!?...

Olho as mãos dele, trémulas, e penso que não tem ideia do valor do seu próprio valor.

_Mais logo passo para levar a estante. Foi o que lhe disse, já do lado de fora da cancela do quintal, escondendo os olhos para que ele não visse como se turvaram.

 

 

40 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa útil - home - pesquisa avançada - últimos posts - tops / estatísticas direito de resposta - área de utilizador - logout informação - ajuda / faqs - sobre o blog.com.pt - contacto - o nosso blog - blog.com.pt no Twitter - termos e condições - publicidade parceiros e patrocinadores