Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008
O C O X O...

Manuel e a serra, o serrote, rompendo a madeira, rasg, rasg, rasg, numa profusão de sons que parecem monótonos mas que se compõem em outros sons menores e meios sons, os arfantes dos pulmões estorricados por milhares de cigarros, dando origem a uma magnífica sinfonia de um só instrumento .

Os pássaros chilreiam em cima da bancada improvisada, pavoneando-se perante os gatos deitados na areia do quintal, numa sonolência pacifica de mesa farta, ou constantemente adiada.

Manuel, de vez em quando faz uma pausa, retira o boné, limpa o suor que desliza pelo rosto encanecido, sulcado de veios profundos, acende uma ponta de cigarro e aspira com satisfação, o fumo azulado que adeja sobre nós na calma do dia, olhando em volta, os pássaros, os gatos e eu.

_ Sr Manuel, a minha estante está pronta?

Faz um gesto largo, os olhos pequeninos que já terão sido grandes, quando habitava a vasta região Beirã, no limite da Beira, , raiando o Ribatejo.

_Está a secar da cola. Tinhas pressa?

_Não, mas queria pagar.

Os olhos avivaram-se. Não ter que pedir adiantamento, como quem mendiga, como se não fosse a paga pelo seu trabalho, a sua arte. Esperara todo o dia que ele viesse. E a tarde ainda ia a meio. Vagueou o olhar em redor, como quem não tem nada para dizer.

Veio ter comigo, cumprimentar-me, coxeando, a bengala de madeira que fora feita por ele, o aparelho da perna que emperrava de velho, ou do uso, ou de defeito de fabrico. E falava-me do tempo. Sim, o tempo ele mesmo, a rotação, a translação, as estações do ano e como contentar a todos se cada um tinha do tempo  uma ideia própria, só deles,de cada um.Como se o tempo fosse pertença do ser, ou da alma.

E nem se davam em como a Terra girava sobre si e à volta do Sol, em como a suas imprecações recaíam sobre si próprios.

_Eles protestam, - fazia um gesto vago com a cabeça, _mas não há como fugir ou protelar, o tempo faz o seu percurso e arrasta com ele todos os elementos, os concordantes e os contraditórios, não há como fugir-lhe.

Senhor Manuel, vamos beber um copo

 

boulevard de la liberté

Autor:Horey

 

Era uma figura de pequeno recorte, baixo e magro, a cara escanhoada, as mãos calejadas da serra e da plaina, do martelo, das caricias na madeira, como se fosse uma mulher bela.

_Vamos lá. Mas voltando ao tempo, acredita que é o grande mestre que tudo resolve. Repara como num dado momento, uma situação que parece impossível de entender, um imbróglio, e no momento seguinte, a cada instante que o tempo avança, tudo se decide pró ou contra, mas decide-se. Deixa de ser. Porque não há futuro, só passado e presente,

só sabemos o futuro passado... quando já é passado...

E veio, arrastando a perna e contando como foi que veio para a Capital mugir as vacas de um conterrâneo que fazia pela vida  vendendo o leite e das maroscas em que o iniciaram, colocando um pouco de água em tantas partes de leite, que era para liquefazer, dado que vinha muito espesso.

Fala-me da sua experiência como condutor de sidcar. E como uma ferida mal tratada, na canela, o levou à amputação da perna e ao escoar de tantos sonhos que construíra.

Falou-me de como conhecera a Maria, sua mulher, de como a  engravidou num momento de paixão e prometeu casar e casou, porque era homem de uma só palavra.

Tiveram cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz. Mas este morrera de Tifo. Um desgosto que o marcou profundamente. Um filho varão.

A voz é arrastada. Tem bronquite, tosse e cospe num lenço que mantém nos bolso das calças, porque se recusa a cuspir no chão, nem para o ar...

Dei-lhe a estante a fazer, não que fosse uma necessidade absoluta, eu próprio a poderia ter feito, simples,as tábuas já cortadas na estância, uns pregos, a cola.  Dei-lha a fazer para que tivesse um trabalho diferente em que se empenhasse de raiz. Foi ele quem fez o desenho, as medidas, imaginou a cor que ficaria melhor na decoração da casa onde eu a ia colocar._Sr. Manuel, quanto é afinal a obra?

_Olha,  pá. Como vês está pronta. É só secar e aparar com um pouco de lixa nos locais da cola. Podes levá-la ainda hoje, mais logo, deixa o tempo agir, fazer o seu percurso_ os olhos nos meus olhos, a sopesar as palavras _ Pronto, são cem escudos. Tu pagaste a madeira, compraste a cola...

Os meus olhos nos dele, um sorriso. Tirei  da carteira o que tinha pensado e estendi-lhe as notas.

Agarrou-as pausadamente, sem pressas, como que envergonhado e de súbito, ao dar-se conta...

_Mas isto são 150!?...

Olho as mãos dele, trémulas, e penso que não tem ideia do valor do seu próprio valor.

_Mais logo passo para levar a estante. Foi o que lhe disse, já do lado de fora da cancela do quintal, escondendo os olhos para que ele não visse como se turvaram.

 

 

sinto-me:
música: A garrafa vazia/ de Manuel Maria
publicado por NEOABJECCIONISMO às 00:39
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