Sábado, 29 de Agosto de 2009
EM JERUSALEM

em jerusalem
há um museu do holocausto
ainda bem

em Jerusalem
há dois povos que se digladiam
e outros que se abstêm

em Jerusalem
há homens virtuosos abastados
e outros que nada têm

em Jerusalem
há um muro das lamentações
que balas não atingem

em Jerusalem
há a esplanada das mesquitas
Judeus e Árabes que discutem

em Jerusalem
há mortos que reivindicam pela paz
e vivos que a diluem

em Jerusalem
há duas culturas antagónicas
que a ONU sustém

em Jerusalem
discute-se a hipocrisia a morte de meninos
surdos e mudos aos apelos de uma mãe

autor:  jrg

sinto-me: bem
música: Requiem For a Dream
publicado por NEOABJECCIONISMO às 02:34
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Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009
SOU APRENDIZ DE VIVER SENDO

 

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foto do site Portugalmaresias, visite e delicie-se na excelência romântica da palavra em

http://maresiaspoetasportugueses.ning.com/?xgi=gl8CcDV

 

foi em pleno inverno era Dezembro que nasci
presumo que em dia frio sem sol tempestuoso
o mar rugia perto na igreja o sino gritei estremeci
e dei inicio ao meu viver de aprendiz algo medroso

...

cresci entre montes de areia e no charco do juncal
andei à escola soletrei li contei conheci mundo
imaginei em sonho como seria Portugal
este lugar da terra onde aprendi a ser profundo

...

comecei cedo aprendiz de blocos de cimento
das oito às cinco pelo patrão que era maricas assediado
galguei num pulo esse oficio que era um tormento
fui bate chapas mecânico e dei um salto arrebatado

...

no escritório era paquete de mulheres formosas ao recado
aprendi de tudo o que um homem deve aprender
a higiene a autoestima a ser no sendo descodificado
voltei à escola senti fervores de amores em meu sofrer

...

fui promovido senti o calor de mulher num primeiro beijo
aquele cheiro absorvente que não mais me deixou
vinha de entre os folhos das saias junto às coxas num anseio
aprendi a ter ciúmes de mulher que amei e não me amou

...

aprendi a ler direito na fome de saber literatura de alto nível
de tudo um pouco mastiguei ruminei e fui sendo conhecedor
escrevi versos insipientes contos fui revolucionário civel
fiz um curso de guerra passei dois anos num mato sedutor

...

enfim reencontrei uma mulher a mais linda e bela a mais formosa
não sem antes ter vivido o pesadelo da pré loucura
ela foi sendo como eu na construção dum absoluto maravilhosa
fomos ao céu adejando sob as estrelas achando o que acha quem procura

...

tive filhos enfrentei da vida tempestades fui promotor de boa e má cultura
não consegui salvar como Camões os valiosos pergaminhos
perdidos na confusão das leis nos labirintos tóxicos desta aventura
andei à pesca pescador de águas limpidas num intervalo bebi dúcteis vinhos

...

andei ao lixo morei num contentor quando fui guarda num parque de campismo
fui aprendiz de tudo o que vivi ganhei respeito e força para começar de novo
como uma Fénix abri as asas expeli a raiva de me ver bem fundo no abismo
galguei montanhas subi maresias contra corrente de ventos que vergam povo

...

como Sisifo empurro a pedra poderosa sustida a meio agarro o mito
tirei mulheres desesperadas encolhidas no manto pueril da melancolia
descobri que ser mulher é ser o fim sendo o principio cultivo dela um novo rito
percorro na senda do sendo novos caminhos dum mundo novo com alegria

...

autor: j.r.g. - agosto de 2009

sinto-me: agradecido
música: O Pássaro de Fogo
publicado por NEOABJECCIONISMO às 13:37
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Domingo, 23 de Agosto de 2009
N A N Y - 2ª PARTE

 

 imagem da net

 

 A minha alma passeou a sua inquietude nos sonhos da noite mal dormida, o corpo dorido, ante o alvor que corria célere e se mostrava  na sua evidência de luz a meus olhos povoados de imagens sombrias, a aclarearem-se.

É um encontro de estranhos, de mim em mim, surpreso de me ver cativo duma mulher. Há quanto tempo o meu coração, a mente, o corpo estável, habituado a amar a única mulher que me amou sentidamente. Era assim, mesmo após a morte, sentia-me desligado de um qualquer enlace que se sobrepusesse ao único e grande amor de toda uma vida.

A imagem de Anamar impunha-se-me insistente, toda ela luz, sabores, cheiros, toda ela uma melodia única nos sons da voz, candidamente doce, pegajosa, a imiscuir-se nos poros da pele, a apelar um entendimento subtil.

Avisto o infinito do mar, de onde me encontro sobre a cama, a planta Tropical tombada sobre a parte direita da janela a toda a largura do terraço, com as portas ao meio, de correr. Há uma bruma à flor da água, flocos níveos como fumo de fogueira mal apagada.

O sol ainda por detrás da falésia, apenas o vislumbre dos seus raios  uniformes que cortam a neblina, as flores que rejubilam amanhecidas, orvalhadas dos néctares nocturnos.

Foi uma noite de inquietação da alma, sem descanso, a mente febril dilacerando-se entre a memória e a realidade a procurar impor-se como uma evidência, a a afirmação de que o ser é sendo, o que ontem era um principio inabalável, hoje aparece em contornos de dúvidas instaladas porque houve uma emoção nos sentidos.

Visto o calção azul escuro que há muito jazia na gaveta e isso é um sinal que o meu ego se prepara para cultivar a aparência, a camisa de xadrez azul claro sobre fundo branco, os chinelos de cabedal abertos ao joanete sobressaindo dos meus pés que me parecem enormes.

A praia ainda semi deserta, esplanadas fechadas, o sol já sobre a falésia, rutilante de luz, caminho ao longo do paredão na direcção do Norte, à minha esquerda o mar de um azul fascinante, as ondas mansas, pessoas que se passeiam cortando a água com os pés, chapinhando-se e penso inevitavelmente nela, esbelta, os olhos doces sobre o meu corpo, o gesticular das mãos que compõem o explanar do seu ponto de vista.

À minha direita o que resta da mata de acácias, os parques de campismo, será que ela vem? Que impressão lhe terei causado? A suficiente para que se dê ao trabalho de vir de novo, na incógnita do que poderá acontecer, no aprofundar de questões da intimidade que aproximam ou afastam, que inibem ou despoletam emoções.

O meu olhar fixa-se, de súbito na silhueta de mulher sentada sobre a pedra grande , à entrada do esporão, o vestido tipo  roupão avermelhado, os óculos escuros, os braços exímios descaídos sobre o corpo e o livro preso na axila do lado esquerdo dela. Sinto toda a harmonia do ser que ela é, ou que se me evidencia como sendo. Aproximo-me , o coração em palpitações de adolescente ante o seu primeiro namoro e penso que é assim sempre que há uma verdade nos sentimentos, um click de sedução consentida, a voz presa na garganta ressequida.

_ Anamar!...

Ela vira-se e deixa-me abismado sobre mim, tirou os óculos e toda a luminosidade dos olhos estavam patentes, como se tivessem estado a chorar, ou uma memória, um sentir que se tivesse soltado de dentro de si e o sorriso, aberto, agradado, agradável.

_João Maria!...

Abraçámo-nos, os seios dela de novo no meu peito, os nossos rostos encostados, tão próximos, perfumes alucinantes vindos dos lábios abertos, apelantes e eu arfante, a sentir o coração dela, a ouvir as batidas aceleradas do meu, tão próximos os lábios carnudos, flores vermelhas humedecidas e afundo-me neles, os meus lábios nos dela, dois toques, frescura e fogo de dentro e embrenho-me e ela embrenha-se, as línguas percorrem-se e ladeiam o interior da boca, as laterais, o céu da boca, salivas entrelaçadas de uma doçura quase extravagante, lábios com lábios, as línguas num devaneio possessivo, os nossos corpos colados, roçando-se, o meu sexo levantado, saltitante e julgo perceber o concavo desenhado do sexo dela  sob o vestido, onde o meu sexo se acoita prazenteiro, despudorado, as minhas e as mãos dela percorrendo a costas em movimentos circulares, respiração contida, arfante e contida a espaços. Loucos.

_Perdoa-me!...o teu poder foi mais forte...

Os olhos dela tremelicaram, ainda mal refeita, passando a língua pelos lábios, voluptuosa, trémula a voz, entre sumida e grave, quase patética se vista de um outro angulo.

_Teria de ser um perdão mútuo porque eu também não me contive, foi um impulso...

Demos as mãos e caminhámos no sentido da esplanada. No areal os gritos agudos das crianças soltando as energias acomodadas desde a cidade. Atiram-se areia uns aos outros e chapinham na água que vem beijar-lhes os pés puros de meninos.

_Digo-te que eu própria me surpreendo. Venho de uma separação conflituosa, como te disse, um homem que se alterou a dado passo da relação, que se assumiu como se tivesse tomado posse de mim, exibia-me, a sua mulher, prendia-me até os pensamentos, o gosto de andar despida dentro da casa, ejacular-se dentro de mim e soltar-se, sem se importar com a minha própria satisfação, alhear-se dos meus anseios, dos meus projectos, possuir-me... _ Deixa-me possuir-te!..._ era como ele me dizia,  ter-me para ele, dócil, submissa.

Aperto-lhe a mão pequenina entre a minha, macia a pele, os dedos esguios, os seios dela batem no meu braço de vez em quando com a oscilação dos corpos no andar e digo-lhe que gostava de ser dentro dela e de a sentir ser dentro de mim

Anamar volta-se e beija-me de leve os lábios.

_És um ser muito querido.

_Acabaste o livro?

_É um livro intenso, de culto pela personagem da mulher, das mulheres todas embutidas na Nany da sua paixão, saída do virtual, deixando-se tomar da paixão dela, ele, um homem velho saudoso da sua juvenilidade, ou da juvenilidade da mulher que é o seu amor de sempre, surpreendido de ser o alvo, o objecto do amor confesso de uma mulher muito mais jovem, bonita, com uma vida confortável, a questionar-se do porquê e do que fazer ao senti-la frágil, ansiosa de o ter como amante.

Anamar fala efusivamente do livro, da substância do livro, percorre os personagens, a entende-los à luz da sua própria imagem.

_E as cenas de sexo, alta madrugada toquei-me ...estou toda molhada...são cenas que saltam do livro e nos colocam dentro da cena, vivenciando-a, depois, toda a teia perversa que ela engendra para acabar a relação, a intriga em volta dele, fazendo-o acreditar que fora um devaneio da sua própria inconstância, o desprezo com que o foi destruindo até que não representasse mais um perigo para a manutenção do seu estatuto de mulher de bem.

E ele, louco, gritando na cidade, julgando que estava à beira do mar: " Nany, Nany!!!..."

 Tomámos o café na esplanada, Anamar de costas para o mar, em frente dos meus olhos, o recorte do tom laranja avermelhado do vestido ou túnica de tecido leve sobre o azul forte do mar e digo-lhe que nos está a acontecer algo de imprevisto, que a estou a sentir como uma célula que brota de mim para fora e que se inclina para reentrar, num ir e vir diáfano que me atordoa que me faz sorrir.

_Estou como que numa euforia em que me apetece gritar, soltar gargalhadas intempestivas sem nada que as justifique, adejar sobre nós os dois, os nossos corpos revolvendo-se, como se te conhecesse há séculos, fazer loucuras, beijar-te, mostrar-te o meu corpo...

Ouço a sua voz melodiosa, o brilho cativante dos olhos, os lábios que se mexem, se mordem a sentir sensações dela, do interior dela, as mãos num rodopio de gestos que procuram completar as palavras, as pernas que se abrem e fecham, o corpo todo em movimento, um movimento que vem de dentro e de súbito, aquele cheiro antigo, há quanto tempo? o cheiro do interior do sexo, absorvente e digo-lhe.

_Podiamos fazer um almoço para nós em minha casa...

Anamar sorri, toda ela, o rosto, o corpo esbelto, um sorriso franco, abrangente, a inteirar-se do meu convite, a sentir que é o momento que secretamente ansiava, secretamente dela própria e faz uma cara preocupada.

_Aceito, mas quero dizer-te que estou no terceiro dia da menstruação.

Dito isto levou os dedos aos lábios e encolheu-se toda na cadeira, como se se desse conta que dissera um disparate, se predispusera a ter sexo comigo, se adiantara em relação ao momento.

_Se não te incomoda eu adoro ser dentro de ti, menstruada, o meu sexo envolto no teu sangue que se purifica, o teu cheiro activo nascido do mais intimo. É isso, a menstruação  altera  o efeito sedutor de mistura com os cheiros da apetência sexual. Torna-os exaltantes a nos sublimarem num absoluto de amor.

Ela ri-se de novo, a alma em redor, a praia "deserta" num repente. Pego na mão dela e vamos...

 

autor:j.r.g.

sinto-me: amoroso
música: Bolero de Ravel
publicado por NEOABJECCIONISMO às 15:52
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Sábado, 15 de Agosto de 2009
SER POETA

Vês aquele homem de cabelo branco digo para minha neta
alto desengonçado no andar que busca entendimento
quem é avô os olhos dele altivos e eu digo-lhe que é um poeta
que parece andar a monte do seu verso que exprime sentimento
+++++
ela fixa o vulto e franze a testa nos três aninhos que é a sua idade
ele sorri para ela do alto do Olimpo onde adejava a sua mente
ela insiste quer saber a importância e o que encerra de verdade
o ser poeta que me encanta de poesia e seduz eternamente
+++++
digo que é um ser vulgar que ilumina em verso a vida da gente
que com ou sem mote descobre a musa em um sorriso de mulher
que nos transmite a força dum impulso que voa permanente
mas avô... os olhos doces como mel pode ser poeta quem quer?
+++++
não meu amor poeta é sentir de dentro a força que move e arrebita
é congregar os elementos a água o mar o ar que regurgita  ventos
é atear o fogo que a alma não enjeita é ser da terra  um eremita
ser poeta é dizer ao mundo inteiro que cessem os lamentos
+++++
e é também ser homem pleno louco apático amante  visionário
que rasga fronteiras impostas na semântica de palavras sensatas
avilta poderes estabelecidos nos preconceitos a que é contrário
poeta é ser maior concreto à revelia das palavras cordatas

autor: j.r.g.

sinto-me: nas raias da poesia
música: Danúbio Azul
publicado por NEOABJECCIONISMO às 14:46
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009
O MITO NA SENSUALIDADE FEMININA

a sensualidade feita poesia
a luz o cheiro os sabores
que das palavras o poema irradia
e me cativa em seus amores

se todo o mundo falasse a mesma língua
e se tivesse da vida a sã visão
o planeta não estaria tão à mingua
dos poucos que lhe estendem sua mão

leio os poemas vontade louca despedida
sangrar poema mão dupla memória
as palavras dúcteis crescendo na subida
ciosas de serem de si a própria história

sigo a vereda poética precisão e poetar
leio enlevado as sobras e a fúria de Gaia
suspenso na noite sonho banhado em luar
e molho o corpo no mar onde ele se espraia

quero abrir os olhos sentir o despertar
descobrir no sonho se estou vivendo a realidade
ou se sou um outro de dentro de mim a voltejar
ouço o teu rir no ventre do jardim que há na cidade

fresca juvenil menina diáfana maravilhosa
de dentro da paixão de viver exibes a rebeldia
o poema vive a metamorfose qual mariposa
e surge esplendoroso ao som da sinfonia

 

porque és da mulher o doce mito

teu olhar espelhado nas palavras sensuais

não és apenas sexo em ti a alma marca o rito

o sexo e o prazer estéril são marginais

 

obrigado, grato, agradecido amiga
que te fizeste humilde para aqui chegar
sendo rainha onde cultivam de ti a arte antiga
pousaste nesta acalmia doce mar

 

 

 

autor:j.r.g.

 

sinto-me: encantado
música: Danúbio Azul
publicado por NEOABJECCIONISMO às 23:32
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