Quinta-feira, 16 de Julho de 2009
N A N Y

Verão de novo, o sol quente a meio da manhã, espalhando raios sobre o mar manso de vento e de maré. Brisa ainda fresca. Água límpida junto à praia, vejo as conchas, a areia de cor acastanhada, os corpos luzidios de mulheres e de crianças que se banham próximo de onde me encontro e vejo os meus pés horrendos que se movem imersos, o dedo do meio sobreposto, os joanetes de cada um dos lados de cada um dos pés, a areia macia, sussurro de vozes em alarido abafado pelos ecos do mar. as minhas pernas cortando as águas como quilha de barco impelido por remos.

Gosto das esplanadas junto ao mar, mirar os corpos, adivinhar as almas em volta de cada um, de como se conluiam manhosamente na alegria dos dias de descanso, ou de como se provocam. Os ardis das conquistas, os beijos e os olhos que se espraiam em volta, os sorrisos encantadores e os de circunstância, sorrisos tímidos, desconfiados, ou cínicos, ordinários, de gente que se mascara para se misturar com os de pureza da alma, descontraídos.

Gosto das transparências, vestidos soltos ou saias de mulheres que usam a praia não para banhos, mas como um local de lazer momentâneo, ou de encontro consigo, ou algo diferente que as faça sobressair por momentos da apatia em que mergulharam o ser, ou ainda uma procura de encontros fortuitos, uma exposição de si, do que acham belo de si, do que sentem e ambicionam ser possível surgir por entre tanta beleza de sol, gente e mar.

Procuro um lugar sombrio na esplanada cheia. Um casal que se levanta, mesmo a tempo, pouso o livro que ando a ler "NANY" de um autor ainda desconhecido mas promissor  que relata uma história sórdida de amor através da net, sórdida porque esbarra em concepções de baixo nível para ter um desfecho abrupto que deixa um dos personagens em estado de choque emocional.

Estou absorto neste e outros pensamentos que se entrecruzam ,rebeldes, com os olhares que lanço aos corpos estendidos  sobre toalhas garridas, e outros que regressam do banho, gotículas de água escorregando pelos braços, os cabelos colados, os olhos, os biquínis metidos nas cavidades pudicas, demoro os olhos no volume das vulvas a adivinhar se é inchaço dos lábios internos ou um penso higiénico por motivo de arreliador período menstrual.

E de repente os nossos olhos cruzam-se e fixam-se, como se um poderoso íman os traísse, eu e ela, uma imagem muito linda, doentiamente linda na simplicidade que a envolvia, nas características do rosto oval, os lábios carnudos, levemente rosados, os olhos negros, a pele acetinada, os cabelos de um negro profundo e exaltante de sedução, os seios sobressaindo da blusa vermelha, livres, proporcionais ao corpo de estatura média, nem muito magra nem cheia,, a saia curta , branca de tecido transparente, as cuecas de renda, provocantemente explicitas quando o tecido se colava ao corpo, por acção da brisa ou dos movimentos que ela fazia com o corpo e a luz do sol esbatia nela e na sua evidência.

Estremeci, ela desviou os olhos por momentos e pude apreciá-la com mais ousadia, doía-me a alma, de dentro do peito, as frontes latejantes, de tanta beleza natural, como uma paisagem idílica e depois voltou, agora de soslaio, olhar obliquo, estranheza no rosto ou dúvida. Inquieta de mim, pensei, ou de me sentir a indecisão, a prisão da voz que queria dizer-lhe uma trivialidade, talvez. E disse-lhe, soerguendo-me da cadeira:

_Bom dia..procura uma mesa, ou espera alguém...

_Bom dia, sim, mas isto está tudo muito cheio, eu espero, não se incomode...obrigado

Disse as palavras sorrindo, todo o rosto iluminado num sorriso absoluto de evidente naturalidade, a voz suave e quente, docemente quente, aveludada. Insisti:

_Podemos partilhar a mesa onde estou, pode voltar-me as costas como se estivesse longe, não a olharei menos do que se estivesse num lugar longe, ou podemos conversar porque a sinto tão rica de conhecimentos...

O sorriso dela abriu-se numa gargalhada cristalina, os dentes perfeitos e sãos, pude sentir-lhe aromas que vinham de dentro, frutos maduros, aglutinantes.

_Está bem, aceito, até porque estou aflita para ir a um WC.

E toda ela era um sorriso de empatia envolvente. Deixou sobre a mesa um livro que trazia, de rosto voltado sobre o tampo e foi, fresca e sedutora no andar.

Reparei então, estupefacto, que se tratava do mesmo livro que ando a ler, "NANY" e senti um ardor estranho em todo o interior do meu corpo.

Lembrei-me de Ana Maria e na doçura quase lasciva em que me envolveu a sua amizade. Ana, há quanto tempo tão longe, sem uma palavra, sem um roteiro de encontro, porquê, terás sentido que te queria ter como fêmea luxuriante? Mas eu contei-te a minha história, sabias que amo a minha mulher acima de qualquer devaneio, sabias que me interesso por mulheres pensantes, mulheres que me permitam ir mais além no conhecimento de mim, testar-me nos vários limites a que me proponho, desde logo, o da amizade, até que ponto a amizade é um amor de grande profundidade, até que ponto me engano quando digo que não quero sexo, apenas palavras e gestos de ternura amiga, desmistificar os problemas ditos insolúveis. Conhecer o meu lado feminino, numa tentativa de absoluto do homem agora sem Deus, livre mas só, entregue a si próprio. Ela voltou, graciosa e simples na sua naturalidade exuberante.

_Anamar...

Estendeu-me a mão, os olhos, que eram verdes, um verde escuro quase negro e não pretos como me pareceram, a luz de dentro do rosto e em volta, descendo suave pelas faces coradas, que beleza de nome, pensei e devo ter tido uma expressão significativa que a fez voltar sobre o meu silêncio.

_Não acredita? Eu gosto do meu nome.

_É um nome fora do vulgar, belo, como tudo o que me acontece ver de em si, perdoe, mas é meu hábito expressar tudo o que sinto quando me parece que é reciproco, eu João Maria.

_Andamos a ler o mesmo livro!

_ E que lhe parece, indaguei.

_É uma história possível, absurda na assunção da minha normalidade, mas possível e está muito bem escrita e sentida, as cenas de sexo virtual são um clímax, sinto que as viveram de facto emotivamente, como se estivessem na realidade colados os corpos e se olhassem de dentro de si.

Digo-lhe que o que me fascina é a interiorização dos personagens, como figuras reais, que assumem as mutações próprias, que as antecipam, como quando ele responde às afirmações de amor eterno dela, dizendo que o tempo é a única peça do jogo que condiciona a intemporalidade das palavras, das intenções e que o desfecho será cruel para com ele, por ser a parte mais tendencialmente absurda do romance.

Anamar sorriu, lindo tudo nela.

_Eu venho de um casamento falhado, onde tudo era maravilha e etereamente vivido até ao momento em que senti que era mentira, que já nada tinha o fogo sequer da esperança tardia.

É como se um élan que nos prende à pessoa, a algo da pessoa, se evaporasse e tudo o que ela diga, ou aparente, nos soa a falso.

_ É um dos aspectos que me fascina, digo, o olhar ausente sobre o mar, por vezes os corpos que se movem na areia fina da praia, pensar que as pessoas acreditam na imutabilidade da relação, como se tivessem sido feitos um para o outro, a cara metade, a alma gémea e não houvesse o tempo, o envelhecimento e a morte de células e o renascimento ou proliferação de outras, ou a mutação de genes, ou uma alteração substancial da energia cósmica que acredito nos influencia a vida.

Há um casal em frente que se beija, depois abraçam-se, ainda novos, e reparo nos olhos dele sobre a minha companheira fortuita, olhos malandros, cobiçosos, a medi-la, a tentá-la no sorriso.

_ O João Maria é de que signo .

_ Sou de Capricórnio. Estuda ou é aficionada de Astrologia?

_Não, sou apenas curiosa, não desdenho nada do que pode ser útil na definição do meu carácter, da minha ancestralidade posso tratar-te por tu? Eu sou de Escorpião.

_Sim, claro, sinto que estamos integrados numa semelhante perspectiva do pensamento. Eu creio que existe um influência cósmica que facilita ou incita à união de um homem e uma mulher, que os determina e que isso nem sempre é tido em conta. É mais fácil, aparentemente mudar de parceiro, infinitamente mudar, numa busca desesperada de encontrar o fio condutor. Ao invés, eu penso que devemos ater-nos ao tempo, e ao nosso conhecimento, aceitar as mudanças, discutir sem pressas que a mudança ocorra na pessoa, mas há algo que não depende só de nós, por isso devemos estar atentos em volta.

_Ao ouvir-te, João Maria, penso que te identificas bastante com o autor do livro, há nele um diálogo constante, do lado de fora dos personagens, sobre a procura de uma justificação para o seu envolvimento amoroso, se o que fazem é considerado uma traição aos seus companheiros ou se, pelo contrário, são apenas um conjunto de palavras que constroem um facto e que pode, por ventura, redimensionar as relações em rotura.

_Mas não sou o autor, podes acreditar, discordo, por exemplo, quando o personagem quer fazer-nos acreditar que aceitou o desafio de amante, apenas com o intuito de viver um romance, como um personagem de facto, porque o que eu sinto é que ele se envolveu todo, perdeu a noção da racionalidade e o desfecho só podia ser aquele, a loucura. E tu, queres falar da tua relação, de como tudo aconteceu?

De repente, ao olhá-la nos olhos, sinto que estou confortável na sua companhia, que me apetece prolongá-la sem tempo limite, preso nos seus lábios que são o sorriso, nos seus olhos rutilantes, nos gestos que traduzem encanto e sobe-me o perfume dela, um perfume que me absorve e não eu a ele, ou não só eu já pelas narinas, mas por todos os poros do meu corpo.

_Talvez amanhã, ou outro dia, hoje ainda tenho os meus pais , vou almoçar com eles, vens amanhã?

_Venho, podíamos vir mais cedo...almoçar por aí...que dizes?

_Veremos a nossa disposição amanhã, o tempo que faz e nos condiciona.

Despedimo-nos com um beijo nas faces, senti o ardor da pele na minha pele e o sorriso provocador ao citar o tempo como condicionante do que fazer amnhã.

 

autor: j.r.g.

 

 

 

 

sinto-me: fértil
música: Bolero de Ravel
publicado por NEOABJECCIONISMO às 01:44
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