Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
DIA INTERNACIONAL DO COMBATE ÀS DROGAS-Blogagem Colectiva ( II )

neo - j.r.g  a minha participação ( II )   

 

 in

 CD - Lado B  blogagem colectiva

 

 

 

A TRAGÉDIA DA MODERNIDADE-A DROGA

 

Era de noite e vieste, silenciosa como um felino, de manso caminhar por entre escombros, ruínas, da velha cidade adormecida. Tu e eu, num recanto da rua mal iluminada.

Os teus olhos ainda grandes, mal me olham, assustados. A pele do rosto descuidada e manchada pelo cisco das poeiras adejando por sobre o teu corpo, em volta da alma. Magra, diria escanzelada, enferma de carinhos e de ambição.

O sistema traiu-te e tu trais o sistema. Pagar  na mesma moeda.   Dente por dente. Sem olhar atrás nem para a frente nebulosa do caminho. Para ti, chegaste ao termo da etapa que para outros ainda é princípio.

Amparas-te no meu braço enquanto caminhamos lado a lado como dois amantes estranhos que tivessem combinado encontrar-se a esta hora, no momento estremo em que deambulavas na ânsia de encontrar algo, alguém que te bastasse o consumo da tragédia que já és, um pouco de pó, a volúpia da seringa penetrando-te as veias enormes onde ainda subsistem e o teu corpo treme ante a iminência de o conseguires.

Congregas o absoluto da tragédia. É isso que eu penso nesta loucura de ter correspondido ao teu apelo, aos teus olhos que me fitaram de uma forma absolutamente irrecusável.

Deixo-te sentada no carro e volto à porta do bar. Não ao Bar. Apenas a porta, onde um tipo de assobio saltitante,  a barba indigente, puxa fumaças agressivas de uma espécie de cigarro.

Compro três tomas do produto que me indicaste e regresso ao carro em passos decididos. Tenho pressa.

Estás inclinada para a frente e uma humidade indecisa a bailar-te, escorrendo dos lábios entreabertos. Cai sobre o banco.  Tremes alucinações. Balbucias palavras inteligíveis.

Arranco com o carro, tenho pressa, enquanto preparas o produto e o injectas numa das veias disponíveis, sob o meu olhar de soslaio.  Imagens correm desabridas. Bem sei que estou só, que posso decidir de mim, de todos os meus actos, mas imbuído de uma força transcendente que me conduz, uma força ancestral, talvez das origens do homem, talvez não tenhamos sido sempre predadores de nós mesmos.

Chegamos, a casa não tem adornos nem vistas. É soturna, com livros e papeis espalhados sem critério. Ainda se o tivesse, se escolhesse o sítio onde o livro tal num determinado lugar do chão, ou o papel em relevo, atirado num momento de raiva ou de simples abstracção, ou a sensação de ter poder.

Olho para ti, o teu corpo ainda de criança, mal cresceste, rodeado de feridas provocadas em improvisos da tragédia.

Agarro-me a esta palavra: TRAGÉDIA, ao seu significado linguístico quando incluída num contexto, a esmiuçá-la quanto à significação da palavra em si e o que representa para ti e para mim, necessariamente emoções contrárias e não porque sejas mulher e eu homem, mas por força de outras eminências do ser e do não ser neste momento.

Olhas para mim enquanto despes, peça a peça, com falsa volúpia nos meneios do corpo, tentando induzir-me em eróticos fluidos inexistentes.  Os olhos mortiços, apagados, sem brilho, sem luz, mas olhos e com um certo tipo de visão, evasiva, turva, de onde vislumbro uma ténue claridade de vida

Atiras-me a cueca mal cheirosa. Mijo e esperma de momentos antigos. Há quanto tempo a tua sujidade?

No quarto de banho a água morna sobre o teu corpo. Deixas que as minhas mãos o percorram em movimentos lentos com a esponja embebida em gel e a espuma abundante a cobrir a pele, as chagas ainda não completamente abertas. Os meus dedos penetram o canal anal em movimentos suaves retirando a merda acumulada. Há quantos dias, meses, anos. Desde quando. Dilatado o teu cu por enrabadelas consentidas em sôfregas investidas de gente tão sem ser como tu. O teu sexo original. Que te fizeram?   Queimada com cigarro? elástica pelo uso sem nexo e a violência da irracionalidade.

 Os teus pés tão delicados, gretados e as pernas que foram belas e agora encanecidas de veias duras, chagadas. As mamas estão como dois balões que se foram esvaziando. Espremidas, a carne, as glândulas, a seiva.

Seco o teu corpo com a toalha grande de todos os banhos e estendo-te a camisa de dormir da última mulher que amei. Escovo o teu cabelo. Abraço-te para te sentir. Para que me sintas. O teu corpo está frio e é um misto de rijo e mole.

-Estou limpa, vá. podes-me foder . Soltas gargalhadas, as mãos em desequilíbrio volteando sem nexo.

Olho para ti de novo. estás limpa por fora. Quase linda. Se tu quisesses! Se tu quiseres!

Preparo uma refeição para nós dois. Bifes grelhados e batatas fritas. _Faço sumo de laranja ou queres leite, pergunto.

Sentados em frente, os meus olhos nos teus olhos até que me fixas e te deixas fixar. _Prefiro o sumo.

Falas-me do desacerto da família. As carências de amor e de ódio. Apenas indiferença que dói, manipula a pessoa e a degrada. As noitadas sem registo, o desinteresse de tudo. A venda dos sentidos por momentos alucinantes de loucura e as ressacas são uma outra espécie de prazeres ocultos que nos inibem de nós e nos transportam para o outro lado do ser, o não ser. Onde já ninguém se importa de nós, até que um dia, Bah. Apaga-se.

Perdeste os modos de comer. Tens fome e fastio. Sem pressa e enquanto experimento sondar o que resta do teu eu, da essência que resta, que a droga não extinguiu.

-Gostava que ficasses aqui.

-O quê? Viver contigo?

-Não. Ficares aqui, simplesmente e deixares que te reaprenda e que tu própria reaprendas a pessoa que há em ti. Que tu és.

Choras. As lágrimas escorrem desalinhadas pelo teu rosto que vem ganhando alguma cor, após a comida quente.

Abraço-te e levo-te para a cama. Vejo que ficas na expectativa do que vou fazer a seguir e ensaias as posições aprendidas na tragédia.

-Fazemos um tratado.

-O que é isso?

-Um acordo de princípios. Vou colocar as duas doses que restam ali, ante ti. Para que os teus olhos as vejam quando acordares. Em cima da mesa das fotos de família. E tu vais resistir-lhes. Que dizes?

Viras-me o cu. E momentos depois, emocionada, a voz embargada numa aura de esperança, envolta em amor, como por magia, sem palavras, o sentido diáfano do conceito de amor, amar o quê? A quem?

-Porque esperas? Acaba com isto de vez. Faço tudo o que quiseres, Na cona, no cu, na boca. E deixa-me seguir o caminho. Podes ficar com a merda da droga. está pago.

Ela disse as palavras sem me olhar. a cabeça enterrada na almofada, a aspirar os aromas lavados há tanto esquecidos.

Levanto-a docemente da cama. Ele, o corpo dela a exalar os cheiros que cativam encantos. Resquícios entranhados na pele.

-Esquece tudo. Apaga. Agora és uma outra pessoa, sem passado, ou de passado ausente, e de presente suspenso. Não há igualmente futuro, apenas este presente suspenso. Chamo por ti, longe e quero que assines um compromisso, que te assumas em responsabilidade, que te chames de onde estás e voltes.

Um silêncio exasperante cortado por um ataque de tosse súbito. Ia cuspir no chão. Olhou-me com doçura, a mão estendida por um lenço.

-Estou aqui para te amar num pleno de intenções e conceitos da palavra. Não quero ter nada contigo do que dizes. Não quero foder.  Quero-te num todo onde tu também és querer. O que eu quero agora é amar-te por todos os que não te amaram. Amar-te sobretudo a alma de cujo destino o corpo é alheio.

As palavras a ecoarem no vácuo do cérebro. Sentia-se bem, a dose acalmara os tremores, as ânsias, a refeição era a primeira completa e bem confeccionada desde que se lembrava, ou mais precisamente, como se fosse a primeira desde sempre. Sentia aquele homem diferente, tratando-a como uma princesa e propunha-lhe um pacto, um compasso de espera entre a razão e a irracionalidade. Sabia que não seria capaz. Logo que doesse rasgaria o pacto. Que se fodesse, mas arriscou.

-Ufa! Queimas-me. Onde é que eu assino.

 

 A RESSACA

 

Sou um quadro superior, considerado importante. Pode dizer-se, um alto quadro de empresa farmacêutica, com direito a assessores  e outras mordomias instituídas.

Telefono a antecipar um período de férias por quinze dias

O dia amanhecera fresco, com o sol de uma cor amarelada a despontar por sobre a falésia, enquanto em frente o   mar de infinito, a cor verde adensada, espelhada numa larga extensão até que a linha de horizonte, como um traço fino de lápis afiado, se esbatia abruptamente no alcance da visão.

Dormitei na cadeira em frente da cama onde o corpo dela meio despido se espraiava em movimentos lentos, quase doces, por vezes convulsivos. E acordava, eu,  em cada instante, sobressaltado, olhando de imediato o volume pequeno mas visível dos 2 panfletos de droga em cima do pequeno móvel das fotografias.

Será que vou ser capaz? Interrogo-me no silêncio do quarto amplo e meio na sombra dos cortinados corridos que escondiam a luz, prolongando a ideia de noite.

O corpo da mulher jovem e talvez bela um dia, ainda, que já fora. Parecia-me mais cheio. Que a carne ressequida voltava a ocupar, muito lentamente, os espaços escavados pela fome de anos. Um corpo de mulher na minha cama de desimpedido, livre de grilhetas legais.

Eu e ela como um só, o pensamento a vogar num sentido, enquanto o dela imerso em sonhos de afogada salva no último instante, parecia permanecer inacessível a qualquer apelo da razão

Pensava na essência do amor, O sentido presente da significação da palavra enquanto entidade que proporcionava uma oportunidade de redenção. A cama, onde vivi noites fatídicas de orgasmos múltiplos com mulheres carenciadas de afectos, perfumadas de aromas exóticos e que ao acordar pela manhã se mostravam na verdade puras de odores incompatíveis com a minha genética do cheiro.

Não havia perfumes adulterados naquele corpo de mulher e no entanto, o ar do quarto estava purificado pela maresia que entrava na fresta da janela e nos inundava num amplexo terno e sedutor.

Levantou a perna, ela,  num gesto descuidado descobrindo a púbis luzidia, os pelos emaranhados mas soltos, leves, seco de pruridos ou corrimentos o sexo de crostas ainda agarradas no clítoris engelhado, como sem vida.  

Levanto-me aturdido pela imagem dum ontem que procurava esquecer, partir de uma nova situação e com um sorriso ainda tímido nos lábios carnudos, fui preparar o pequeno-almoço.

Estava acordada, quando voltei de tabuleiro recheado, e o melhor dos sorrisos, a dizer a palavra bom dia.

Recomposta, esclarecida  da nova situação, mastigando cada pedaço, rebuscando na memória escaldante, justificações quase pueris.

Os pais separados. A preocupação com a carreira de cada um. O irmão que era a glória da família. Namoricos desinteressantes de adolescente fugidia. Uma mudança de escola intempestiva. Amigas igualmente descontinuadas, como ela, um pai austero que surpreendera a ser repreendido por um senhor que fora lá a casa, que se recusara a esclarecer o que se passava, porque tinham de mudar de casa. A mãe indefesa, descrente, preocupada em ter elogios no emprego que era o tema de todas as conversas e da falta de tempo para ir à festa da escola, à reunião de pais, sequer a ouvir as suas dúvidas, as inquietações crescentes que a incomodavam.

-Seria melhor avisá-los que estás bem?

-Não. Puseram-me fora, acreditaram nas palavras de psicólogos imbecis. Que eu havia de me cansar da rua. Quando o que eu precisava era que me amassem sem reservas. Que atendessem ao eclodir de mim como pessoa. Que se confiassem em mim.

Parou. Os olhos febris e suores pelo rosto. Os olhos castanhos, chocolate, a olhar os panfletos em cima da mesa dos retratos. O corpo a contorce-se em espasmos incontroláveis.

-O que foi? Coloquei todo o  mel possível na voz, quase ciciando as palavras.

Os olhos dela nos panfletos, a levantar-se, encolhida, agarrada a si própria, os braços magros em volta do corpo, a chegar à mesa, a poisar a mão no objecto de toda a fixação, o sonho, a libertação afrodisíaca. Um gesto brusco e o ar desvairado na procura, de quê, ainda.

Os meus olhos em ela, como que guiando o sentido da vontade.

-Não! O tratado! O Pacto! Ou lá o que foi que assinei. Quase um grito alucinado, a fugir do nada que não sendo é quase tudo.

Voltou, deixando os panfletos no local exacto onde estavam. Não já para a cama, mas deixando-se escorregar em tremuras, num canto do quarto, o mais escuro dos quatro, continuamente agarrada a olhar aquele homem que eu sou que não a quisera ter como tantos outros e a perguntar-se porquê. Que fazia ela ali, a sofrer dores insuportáveis. Se bastava uma simples dose do produto. E outra. E outra até à finitude de toda a matéria que ainda era.

Foram oito dias das férias. Fechados os dois, no quarto amplo de cortinas corridas. O comer encomendado pela Net. a langerie umas roupas bonitas para que se gostasse, os sapatos. Todos os dias um banho, as minhas mãos sobre o seu corpo a ganhar forma.

Três dias a implorar, ela, em delírios lancinantes.   Por mais de uma vez segurara os panfletos entre as mãos trémulas e por entre soluços os largara.

Ao oitavo dia, eu tinha adormecido, por um momento. Acordei ao bater de palmas repetidas. O primeiro olhar foi para a mesa dos retratos. O coração em estrondos de batuques frenéticos. Desapareceram. Os panfletos de droga não estavam lá.

 Olhei em volta e na expressão de espanto dos seus olhos, a imagem raiada de luz, em catadupas de luz, como um sol dos princípios do mundo, intenso, espalhando sonoridades na luz. como se um coro de meninos entoasse uma canção de amor.

O vestido vermelho cingido no corpo renovado de carne. Os olhos com uma expressão tão viva de felicidade. Sobretudo os olhos. Castanhos chocolate.

O vermelho sangue do vestido. O cabelo brilhante caído a raiar os ombros a descoberto pela cava do vestido.

Olhou a mesa. os panfletos que haviam desaparecido. E o riso dela, cristalino, aberto, confiante a levantar a moldura de criança em cima da mesa, deixando ver os pacotinhos. o papel branco sujo.

Levantou-se, os olhos toldados e abraçou aquele corpo bem cheiroso de aromas únicos, naturais, as mãos dele nas faces da menina bonita que ela se transformara, macias agora,   os braços, os seios a voltarem a uma normalidade estranha ao corpo de antes.

Abraçou o corpo em êxtase.

-Minha menina! Minha menina! Como tu estás linda e vistosa. Bela na tua totalidade.

Como eu amo o que tu és agora. Um amor diferente de todas as espécies de amor. Um amor da ideia que consubstancias na forma do teu ser absoluto. Um amor da ideia de amor que é este sentir o outro a mexer dentro de nós, como sendo uma parte visceral chipada num lugar inacessível, porque é alma. Vou amar-te sem limites e mimar-te até ao fim de todos os fins

E a caminhada ainda é tão longa.

 

 

 

 

 

 

 autor:  neo -  jrg

 

sinto-me: exausto
música: um redondo vocábulo - José Afonso
publicado por NEOABJECCIONISMO às 00:50
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 CD - Lado B  blogagem colectiva

 

Que bom ver-te, meu menino! E como estás bonito!

Há quanto tempo não te via, os olhos brilhantes e o rosto cheio de carne sadia. O falar fluente, a alegria, o abraço forte, o beijo.
Fico a olhar os teus gestos decididos a desfazer a mala. A arrumar tudo meticulosamente.
Há vinte anos que te não via e só guardava a tua imagem de menino. Lindo, de olhos grandes, castanho-escuro, os caracóis em revolta na cabeça de sonhos. E o sorriso. O brilho do teu olhar sobre o sonho.
Voltaste a sorrir, como quando jogávamos à bola na mata em frente, tão perto do mar, e te fazia perder para ouvir os teus protestos, porque só querias ganhar. Ganhar sempre, ser o primeiro e pergunto-me porquê? porque de deixei ir?, porque te deixaste ir?, que forças te arrastaram na enxurrada da indignidade?
Que bom ver-te meu amor. Sentir que não te levaram de todo. Que ainda resistes e estás mais determinado do que nunca em vencer.
Bem podias  ter vindo mais cedo. A minha mão esteve sempre estendida do lado de fora do mundo em que caíste.   Em frente de ti. E sempre que te via, acenava-te. Gritava o teu nome. Filhoooo !!!...no silêncio que me doía, na angústia da tua ausência, tu, ali tão perto e longe, longe...
As novidades? Estamos bem, como vês. Chegou uma menina encantadora que cresce plena de felicidade. A neta, tua sobrinha. O pai está desempregado A mãe, continua batalhadora. Estamos bem, como vês. Endividados, nas mãos de agiotas legalizados,  mas havemos de chegar a porto seguro, estamos bem, como vês, porque tu és vivo e estás de novo do lado em que estamos.
Que bom ver-te com a esperança embandeirada. O hino de confiança. A paz que regressou ao teu coração desfeito em rotura com o mundo. O fulgor rutilante dos teus olhos, de novo.
Que bom ver-te, fruto de um grande amor , quando já desesperava de te ver.
Bem-vindo a casa e fica, se vieste para ficar. 
 
( palavras de pai para filho acabado de chegar da comunidade terapêutica, para se fazer à vida) neo-jrg
 
A matemática, esse quebra-cabeças dos Portugueses em geral, não é uma ciência mítica só ao alcance de alguns iluminados, mas porque é manipulada  ao sabor de interesses que ainda persistem e consideram que  "em terra de cegos quem tem olho é rei", continuamos a navegar em teorias de combate ao insucesso , condenadas a manter os níveis aceitáveis de cegueira colectiva.
Actualmente a proliferação do consumo de drogas por amplas camadas de juventude de todo o mundo, tornou-se num flagelo que nenhum governo tem conseguido estancar.
Desde sempre houve consumo de drogas, que não eram proibidas, nem atingiam os preços a que são vendidas nas ruas, nem geravam fabulosos lucros. Em consequência, quem sofria de stress por drogas comprava-as onde era possível ou optava pelo vinho. Era uma minoria, contestatária, talvez, das regras de convivência que se iam alterando. Sinais de rebeldia que prenunciavam mudanças radicais.
Eu penso que a partir da eclosão do Maio de 68, se espalha a ideia reivindicativa de que vale tudo. É proibido proibir tudo. Amor livre. Abaixo os poderes instituídos . A inalação de drogas pelo fumo avança em todas as direcções. As democracias tentam resistir, mas rapidamente os senhores da finança vêm ali um filão inesgotável, e são eles que financiam o estado e que o controlam. É para eles que as leis são manipuláveis, no esgrimir de interpretações por magistrados e advogados que as leis permitem. O legislador pondera os riscos da descapitalização e no meio dos artigos que condenam, há sempre uma alínea que descriminaliza. Não há crimes de colarinho branco nem lavagens criminosas de dinheiro derivado de produtos considerados ilícitos, porque o dinheiro é muito e compra tudo o que se apresente como obstáculo, é uma teia sem aranhas. O povo diz:"quem cabritos tem e cabras não cria de algum lado lhe vem..."
Aqui, em Portugal ,o consumo de drogas disparou com o advento da Democracia, não por culpa da Democracia, antes por uma coincidência de tempo, porque estamos sempre atrasados na ventura e na desgraça.
O consumo e o tráfico são proibidos e condenados com pena de prisão.
Milhares de famílias são assoladas por esta praga, Adolescentes instigados ao consumo sobre os mais variados pretextos de afirmação pessoal, de desinibição. de ser mais forte. Jovens, meninas, lindas que foram, agora enrugadas, prostituídas, devassadas.
Os pequenos cartéis de tráfico organizam-se. No interior das prisões superlotadas continuam a traficar e a consumir. Nas ruas os chamados pequenos delitos. A saga da moedinha para o arrumador que surge, do nada quando já tínhamos quase arrumado o carro.
Roubam os pais, a família, os amigos. Vendem tudo o que tem comprador e há quem compre É um negócio de lucros fabulosos, onde se vende tudo até a dignidade.
O estado, nós todos, financiamos as medidas ditas profiláticas que o governo implementa, de apoio financeiro às comunidades terapêuticas de reinserção, aos tratamentos em ambulatório, com resultados deficitários de recuperação efectiva e duradoira, nascem novas clínicas especializadas , criadas por psiquiatras e outros técnicos terapeutas, algumas possivelmente financiadas por dinheiro proveniente da venda de drogas e destinadas a uma camada da população financeiramente desafogada.
As polícias investem na formação especializada no combate ao tráfico. Os criminosos detidos em resultado das investigações são postos em liberdade. Presos são os consumidores, por consumirem e por roubarem. A droga e dinheiro apreendido nas operações, desaparece em circunstâncias misteriosas.
Os verdadeiros agiotas do tráfico continuam impunes. Participam, até, na discussão. Influenciam politicas. Corrompem influências. E seguem na matança intelectual e física do que melhor tem um povo, uma nação.
Surgiu o HIV, as hepatites B e C proliferam.
As famílias a lutar contra a insolvência absoluta. Sem ajudas oficiais, dependentes da força que os catapulta para a frente, da ajuda de uns poucos amigos e familiares que a dinâmica vai gastando,  a ganharem tempo. 
Condenadas, até, por não terem sido capazes de evitar a desgraça.
Alguns países adoptam medidas para liberalizar o consumo de drogas, que passa a ser disponível em farmácias e locais apropriados criados para o efeito.  As noticias sobre a eficácia: se aumentou-reduziu-estagnou, não são distribuídas na mesma dimensão.
Por cá, e não só, os arautos tentam explicar-nos em equações algébricas e outras engenharias matemáticas, que a liberalização não é possível. Iria criar mais dependências, facilitar a transacção entre estados!?...aumentar o consumo, etc.
E nós a percebermos que dois e dois são quatro em qualquer circunstância e que somados sucessivamente, chegamos aos milhões da ganância, que matam e morrem pela ganância de viverem na abastança erguida sobre o sofrimento, a dor e a desdita de quem vê um adolescente primoroso ser arrastado impunemente nas águas sórdidas da mentira.
Toda a gente com bom senso sabe que a solução é só uma: liberalização. Tratamento eficaz com disponibilização de todos os meios, clínicos, ambulatórios, psiquiátricos, de entreajuda e acompanhamento de proximidade. Informação desde os primeiros anos de escola, a consciencialização de professores e auxiliares de educação. Todos, de uma forma organizada, que UTOPIA, nem o facto de alguns dos filhos dos poderosos da droga serem atingidos pelo problema os desarma, em todas as frentes.
Tanto os que são contra como os que são a favor, os que só tem a perder com os negócios das drogas, sabem que a liberalização, a venda livre dos produtos em farmácia, acabaria com o tráfico. A determinação dos estados, onde a droga é produzida, para reconverter as culturas, é outra Utopia, sabendo como há estados totalmente dependentes do comércio de drogas.
O problema está no que está em jogo: dinheiro, poder, ganância. A vida e a morte. O filão é imenso e corre a favor  das máfias que controlam e dinamizam o comérico de todas as drogas. Há uma crise mundial de valores. O Planeta debilitado pela poluição e pelas atrocidades cometidas ao longo dos dois últimos séculos. A falência dos sistemas financeiros. O desemprego generalizado e a falta de alternativas.
É só imaginarem a quantidade de gente que beneficia com a proibição e crime sobre o consumo. A corrupção das consciências, a coacção sobre as vitimas e as famílias.  O tráfico de influências.
Os argumentos dos que são contra a liberalização do comércio das drogas: Paraíso para os traficantes. Mentira, tudo palavras de conveniência
E quanto aos traficados? Crianças, jovens, famílias!.. engajadas neste esgrimir de posições, tratados em subserviência, com listas de espera nos espaços de reinserção, sem um programa consequente que os insira no mercado de trabalho, deixados à sua sorte num mercado à míngua. Estigmatizados. Frágil é a esperança que alimenta a auto-estima em reconstrução.
Consciencializar, difundir  pelo mundo a palavra de ordem de não às drogas, ser cada um um transmissor de esperança, não aproveitando-se, por exemplo, duma menina que se oferece para a prática de fantasias sexuais para satisfazer à ressaca, mas estender a mão à esperança com esperança.
 
 autor: neo - jrg
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